o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Indignação!

                O imbróglio da favela Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), continua a indignar cidadãos brasileiros de todos os matizes políticos. Além de tirarem as pessoas das casas com a roupa do corpo (muitos foram obrigados a sair de seus lares sem conseguirem sequer pegar documentos, remédios ou mamadeiras das crianças), agora aparecem vídeos de tratores derrubando as habitações com tudo dentro porque não deixaram os antigos moradores retirarem seus móveis e objetos pessoais! Em algumas delas, até os animais domésticos continuam lá! Há limite para tudo!

É crueldade demasia destruir assim tudo o que essas pessoas conseguiram na vida, que muitas vezes se resume a um punhado de roupas e uma mobília básica – como fogão, geladeira, mesa, cama e sofá. Aliás, falei rapidamente com um amigo hoje e ele me disse que mesmo a mãe dele, que deve estar na casa dos 80 anos, está indignada com o Alckmin.

O episódio também desmoralizou o Judiciário brasileiro, já tão desacreditado no que diz respeito a questões de Justiça. Juízes que se ateem ao lado legal, mas atentam contra a Justiça (essa sim, que merece começar com letra maiúscula), conseguem a “proeza” de serem alvo de desconfiança dos cidadãos, embora devessem estar absolutamente acima de qualquer suspeita.

Tudo isso é um desabafo, que encerro com uma esperança: a de que o povo melhore sua memória em momentos cruciais, como o das próximas eleições.

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              Uma piscina cheia de sangue. É essa a imagem que me veio do condomínio de luxo que provavelmente será erguido no Pinheirinho, após a desocupação. Além da piscina de sangue, haverá ruas ladrilhadas com caveiras e ossos usados na sinalização. A região será tranquila, com o silêncio cortado apenas por murmúrios de almas penadas. Mas esse múrmurio não será ouvido uma vez que os moradores, de apurado gosto musical e bom poder aquisitivo, terão aparelhos de som comparáveis a trios elétricos para tocar rock, mpb e até mesmo o democrático funk.

A agilidade da Justiça Paulista no caso, famosa pela sua ausência de celeridade, é surpreendente. A prisão de Pimenta Neves, assassino confesso, demorou 13 anos, por exemplo. Há processos que ficam décadas nas varas civeis. Por que tanta pressa, principalmente levando-se em conta que havia um acordo para que se aguardasse 15 dias enquanto se negociava uma solução para o caso?

Aliás, por que a juiza responsável pelo caso foi embora para casa na sexta-feira antes de homologar esse acordo? E qual a razão de se proceder à desocupação assim, a toque de caixa, em pleno final de semana, quando haveria dificuldade de se conseguir uma liminar para deter a ação? E o aparato policial, de 2 mil homens fortemente armados para expulsar miseráveis de suas casas, também provocam perguntas. Qual o custo dessa desocupação? Por que esses homens não estavam trabalhando no atendimento à população?

Praticamente todas as possibilidades de respostas a essas perguntas indicam a existência de interesses escusos nessa história, que me enoja. Mas não vou repetir aqui muita coisa que outros blogueiros e twiteiros disseram. Não tenho estômago. Apenas acho que devemos continuar repercutindo essa história até o ponto em que ninguém mais vá querer comprar uma mansão no condomínio de luxo Pinheiro.

A Anistia Internacional faz um apelo em favor de Christi Cheramie. Vítima de abuso e depressão, ela teve a infelicidade de estar presente quando seu noivo assassinou a tia-avó dele e a Justiça do Estado americano de Lousiana a condenou à prisão perpetua por seu envolvimento no crime. Na ocasião, Christi tinha apenas 16 anos e, pela lei americana, era considerada incapaz para beber, votar, servir como jurada ou comprar bilhetes de loteria. Mas mesmo assim ela foi responsabilizada pelo crime e condenada à prisão perpétua.

Afrontando violentamente a Convenção das Nações Unidas sobre Direitos de Crianças e Adolescentes, a Justiça dos EUA condena crianças à prisão perpétua, algumas com apenas 11 anos de idade. Independentemente da gravidade de seus crimes, crianças e adolescentes ainda não têm pleno discernimento sobre seus atos e são os que apresentam melhor potencial de mudança e recuperação.

Christi hoje tem 33 anos e é considerada uma presidiária modelo. Ela estudou na prisão e hoje dá aula para outras detentas. Por isso, a seção americana da Anistia Internacional está fazendo um abaixo-assinado para pedir que o governador da Louisiana, Bobby Jindal, interceda em favor de Christi junto ao Comitê de Indultos do Estado, que deve se reunir na próxima semana. Para assinar a petição, clique em http://migre.me/7AnIu

A Anistia Internacional destaca que cada cidadão do mundo pode fazer a sua parte para pressionar os EUA a abolirem a pena cruel de prisão perpétua para crianças e jovens. Condenados por crimes cometidos durante sua infãncia ou adolescência devem ser reabilitados e merecem ter uma segunda chance, em vez de apodrecerem numa cela.

                O caso do estupro na casa do BBB está dando o que falar nas redes sociais e não vou ficar chovendo no molhado e repetir que o fato de a menina não ser recatada não justifica, que não foi racismo, que o vídeo foi transmitido para todo o Brasil, que TV é uma concessão pública etc. Apenas acho que algumas outras questões passaram batido. A principal é a atitude da Globo de tentar vender gato por lebre.

No domingo a noite, Pedro Bial, que já foi um jornalista de grande credibilidade antes de virar essa caricatura que hoje aparece no vídeo, praticamente começou o programa com a frase: “O amor é lindo!” Foi uma tentativa de querer transformar um estupro em um caso de amor. Aliás, a própria maneira como a produção agiu, perguntando o que houve à participante que foi violentada, enquanto inconsciente, é absurda. Óbvio que alguém inconsciente não sabe o que aconteceu enquanto estava apagada. Então, nada mais era do que uma tentativa de distorcer fatos e fazer com que ela dissesse que nada houve e se colocasse uma pedra sobre o assunto.

Mudar a realidade em um “reality show” é, no mínimo, um contrasenso. Agora a tentativa de fazer com que a “sister” acreditasse que nada aconteceu é um segundo estupro. Aliás, nem os telespectadoes escaparam disso. Na segunda-feira, Bial disse para o Brasil inteiro que Daniel foi expulso do programa por “desrespeitar o regulamento”, sem explicar que item do regulamento foi desrespeitado (aliás, não há qualquer menção a esse regulamento para que possamos consultá-lo).

Sonegou a informação de que nas 24 horas anteriores as redes sociais cobraram a cabeça do rapaz e essa foi uma exigência da polícia para manter o programa no ar. E os telespectadores que não participam de redes sociais ficaram “boiando”. Esses mereciam no mínimo uma satisfação, uma explicação. Aliás, os participantes da casa, também.

Outra questão que merece debate é a atitude das pessoas diante de uma denúncia grave como essa. Surpreendi-me com um amigo, pelo qual tenho muita consideração, que acabou incorporando o santo do Rafinha Bastos em seus comentários. Aliás, várias pessoas chegaram a dizer que tudo deveria ser encenação, que quem entra num programa como o BBB está sujeito a isso, que não se poderia esperar outra coisa… Ou seja, segundo essa argumentação, denúncia de estupro só merece ser apurada se for na minha casa, ou na sua; não na rua, no metrô, no puteiro, no BBB…

Desviei de provocações no Twitter e no Facebook. Houve quem disse que se estava condenando o sujeito antes do devido processo, sem direito à defesa ampla e contraditório etc. Como se não houvesse um crime que foi transmitido para todo o Brasil, e com autoria conhecida. O que a Justiça vai discutir é as circunstâncias, os atenuantes (se houver) e a pena.

Impressiona ver que crime transmitido pela TV é considerado obra de ficção nesse País!

                Certa vez, passeava com minhas duas cachorrinhas na avenida Liberdade quando um garoto tentou chutar uma delas. Instintivamente, joguei minha mão contra ele, mas ao ver que se tratava de uma criança que teria no máximo três anos, minha mão parou antes de atingir seu rosto. Estava perplexa quando ouço alguém, a pelo menos cinco metros de distância, do lado de dentro de um supermercado, gritar: “Você não pode bater no meu filho.”

Nem me ocorreu perguntar o que o garoto fazia sozinho na calçada, pois ele poderia sair para o meio da rua e ser atropelado. Apenas respondi, irritada, que eu não tinha batido, mas que ele estava chutando minhas pequenas cachorros (cada uma têm quatro quilos e eu costumo dizer que não são cachorros de verdade, mas apenas bichinhos de pelúcia vivos).

Bom, só depois disso é que ela saiu do mercado e veio para junto do filho; não para cuidar dele, mas para bater boca comigo. Durante a discussão do tipo, você bateu/eu não bati, o garoto ainda tentou bater em uma das minhas cadelinhas salchichas. Eu falei para o garoto, apontando o dedo para a cara dele “Não se bate sem motivo, assim; não se deve bater em cachorro.” (A sorte dele é que minhas cachorrinhas são dóceis, mas um cachorro de temperamento mais agressivo poderia reagir e, depois, diriam que o bicho é bravo, que deveria ser sacrificado…) E também disse à mãe que era preciso educar a criança desde pequeno.

Qual não foi o meu espanto ao ouvir da mãe: “mas por que tudo isso? É só um cachorro!” Foi aí que comentei, pensando em voz alta: “como você pode dar a ele o que você não tem? Você não tem educação, como pode educá-lo?” Ela, então, pegou o garoto e saiu correndo dali.

Mas é algo extremamente grave quando um garoto agride um bicho que está apenas passando na rua e a mãe diz que é só um cachorro, como que a dizer que o cão não merece respeito. Provavelmente tiveram mães assim os garotos que há algum tempo queimaram um índio em Brasília porque pensaram que era só um mendigo, ou os pitboys que surraram uma empregada doméstica que aguardava o ônibus no Rio porque pensaram que era uma “só” prostituta.

Gente que não é capaz de demonstrar respeito por um cão não respeita nada nem ninguém. Aliás, cães sempre demonstram amizade incondicional pelos seres humanos, mas o inverso não é verdadeiro e, por isso, costumo dizer que minhas cachorras são mais gente que muita gente por aí.

Isso tudo é um desabafo ao ver tanta crueldade gratuita com os animais ultimamente, desde a doida que matou um pobre yorkshire até a assassina fria que desovou cerca de 30 corpos de cães e gatos em uma noite. Ah, não podemos esquecer do mecânico que torturou o rotweiller dele porque ficou descontente com alguma coisa que ele fez.

O sujeito não faz isso com outros seres humanos por pura covardia, já que teme consequências. O sadismo contra animais é apenas um escape para personalidades doentes, que precisam extravasar sua crueldade. Se não tivessem bichos indefesos à sua mercê, fariam isso com seus semelhantes.

O programa Mulheres Ricas está realmente dando o que falar no twitter. Eu mesma não assisti o episódio que foi ao ar na segunda-feira, mas com tantos links e falatório, já estou por dentro de tudo. Só não entendi o por quê do título. Convenhamos que há vários tipos de riqueza – material, espiritual, artística… –, mas exibicionismo não pode ser assim considerado. O que é exibido no programa é uma sucessão de lugares comuns e fantasias – algumas delirantes até – acerca do que o povão pensa que é ser rico.

Muitos anos atrás um casal de amigos abriu um estabelecimento comercial promissor. Tratava-se de uma loja de pastéis em um ponto badalado dos jardins. Ganhavam dinheiro, mas a custa de um trabalho insano. “Queria ter negócio próprio e na minha cabeça eu não iria trabalhar no dia em que preferisse ficar em casa; mas tem conta de aluguel, luz, funcionário etc e se deixo de abrir um dia, o prejuízo é muito alto”, avaliou Henrique depois de algum tempo. Sua conclusão é que como empresário ele tinha muito menos liberdade do que como empregado, pois tinha virado escravo do negócio.

Ricos de verdade não andam por aí se exibindo, até por medo de sequestro. Alguns realmente tem boa vida, mas são exceções, e não a regra. O rico fica a todo momento pensando em sua empresa e em como administrar seus bens, coisa que ocupa muito tempo. Nada a ver com a pose do sujeito que fica o dia todo bebendo champanhe e comendo caviar – a caricatura sempre presente nos enredos de novelas que passou a ser confundida com um retrato fiel do rico pelo grande público.

Boa parte dos ricos verdadeiros que acumulam cifrões também acabam reunindo riqueza cultural, pois uma das boas coisas que o dinheiro pode comprar é viagens e acesso ao que há de melhor nas artes. Adquirem assim um senso estético refinado, mesmo quando não têm mais dinheiro (o que acontece com frequência com famílias tradicionais depois de algumas gerações). Bem diferente de gente sem nenhum senso estético, que compra o que há de mais espalhafatoso apenas para mostrar (mesmo que não ostensivamente) que estes artigos tinham etiquetas com muitos zeros. Isso é algo de uma pobreza impressionante!

Por que será que as pessoas se recusam a enxergar a riqueza que existe em suas próprias vidas – com os relacionamentos, acontecimentos do dia a dia, qualidades pessoais, atitudes etc. – e ficam a sonhar com a vida idiota dos “ricos” que a TV mostra?

Lembro-me de uma única vez que um trailer foi decisivo para me levar a assistir a um filme. Na verdade, foi uma única cena. Os marcianos invadiam a Terra e entravam em um corpo a corpo com os seres humanos nas cidades deste planeta. Um terráqueo em fuga acaba encurralado pelo alien em um beco e resolve mudar de tática. Puxa um cartão do bolso de seu paletó e diz: “Se vocês querem dominar esse planeta, vão precisar de um bom advogado. Por um acaso, sou advogado e posso prestar serviços para vocês. Aqui está o meu cartão.” Imediatamente, ele é fulminado por um raio que sai da arma alienígena.

O filme é “Marte Ataca”, uma sátira de películas ao estilo de “A Guerra dos Mundos”, mas a perspicácia dessa cena talvez seja a mais aguçada que já vi no cinema de entretenimento ao colocar a observação de que advogados podem transformar seus clientes nos donos do mundo. Os fatos que observamos hoje mostram que a ideia não é caricata. Muito pelo contrário, é a pura realidade.

O movimento Ocupe Wall Street, por exemplo, questiona o fato de o sistema financeiro estar estruturado para favorecer poucos em detrimento de muitos. Nos EUA, eles reclamam que os bancos colocaram artifícios nos contratos imobiliários que levaram a população a dever tanto que praticamente restou-lhe apenas a roupa do corpo.Aqui, quem não foi surpreendido por taxas de cartão de crédito ou de cheque especial? E ao questionar, descobre-se que essas taxas estavam previstas nas entrelinhas dos contratos. Ou, se não estavam, quem tem tempo e dinheiro para recorrer à Justiça contra isso. O pior é que quase sempre a administradora ou o banco reajustam, unilateralmente, o valor de taxas e multas e fazem os clientes pensarem que eles têm a obrigação de pagar o que essas empresas pedem.

Multinacionais de vários outros setores também recorrem a advogados para dominar o mundo. Primeiro com lobby para a adoção de normas de licenciamento a seu favor em todo o globo. Depois, para cobrar a aplicação dessas normas. Assim, empresas que registram patentes de transgênicos, por exemplo, vão cobrar de agricultores simplórios dízimo através dos tribunais. Alegam que têm direito a parte da produção que foi obtida a partir de suas sementes. Poderá chegar o dia em que gravadoras poderão cobrar pelos direitos de reprodução de músicas tocadas em festas particulares!

O grande porém acerca do domínio do mundo sem armas por parte de grandes corporações, entretanto, é ainda mais aterrorizante (sim, são empresas terroristas!). Elas tentam submeter governos a seus propósitos. Em várias crises recentes, inclusive no Brasil, vemos que os Tesouros nacionais transferem recursos a bancos sob o argumento de que não se pode deixar o sistema financeiro quebrar, o que levaria o país à falência. Esses recursos são “emprestados” sem garantias a juros de pai para filho. No Brasil, isso ganho o nome de Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional).

Queria deixar bem claro que não tenha nada contra advogados que trabalhem em prol da Justiça, mas sim contra aqueles que buscam dominar o mundo e torná-lo mais injusto.

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