o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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Telefone sem fio

Na minha infância, já remota, havia uma brincadeira muito popular chamada telefone sem fio (os que vemos hoje ainda não existiam nem na imaginação). As pessoas ficavam dispostas em algum tipo de fila (podia ser ao redor de uma mesa) e a primeira cochichava uma frase no ouvido da segunda, que a repassava à seguinte, sempre aos cochichos, até chegar à ultima. Inevitavelmente, o resultado do final da fila era muito diferente da frase dita inicialmente. Algo como “gosto de macarrão” virava “sabor de macaco” ou coisa pior…

Acredito que os reporteres que hoje trabalham na grande imprensa não tiveram a oportunidade de brincar com esse jogo, pois praticamente só os mais novos é que aguentam as agruras da reportagem e eles tiveram brinquedos mais interessantes em sua infância, como video games e assemelhados. Mas parece que estão brincando de telefone sem fio.

Ontem, vi uma matéria que dizia que um reporter da Reuter (sem citar nome) teve acesso a trechos do conteúdo do depoimento de Marcelo Odebrecht e citava o que seriam alguns trechos. Hoje, já vários jornais “informam” (?) que ele disse que Dilma sabia dos valores que a empreteira deu e por aí afora… Não há qualquer menção ao fato de que o depoimento é sigiloso. Portanto, tudo isso é uma imensa brincadeira de telefone sem fio.

Essa é a imprensa que temos nesse país. É brincadeira?

 

Um texto instigante

Compartilhei o texto abaixo no Facebook e, surpreendentemente, ninguém comentou, curtiu ou fez qualquer ação sobre ele. Isso apesar de eu ter colocado no alto da postagem que “vale (muito) a pena ler. Poucas vezes vi reflexões tão impactantes.””

Acredito que o Face de alguma forma censura esse conteúdo. Afinal, as postagens que vejo lá ao entrar não seguem ordem cronológica, nem ordem alguma que seja relevante para mim. Talvez sejam relevantes para o Face e seus anunciantes. Bom, por esse motivo, resolvi chupar o texto a colocá-lo aqui. É algo que todos deveriam ler.

Sobre o Fenômeno dos Empregos Insignificantes

“Por que a utopia prometida por Keynes nunca se materializou e ainda continua sendo avidamente aguardada desde os anos 60?”

Publicado originalmente na Strike! Magazine[1]

por David Graeber[2]

Colagem por Bárbara Scarambone

Em 1930, John Maynard Keynes profetizou que, no final do século, a tecnologia teria avançado tanto que países como Grã-Bretanha[3] e Estados Unidos conseguiriam ter 15 horas de trabalho por semana. Existem muitas razões para crer que ele estava certo. Em termos tecnológicos, temos capacidade para isso. No entanto, tal não aconteceu. Ao contrário, a tecnologia foi empacotada, se tanto, de modo a descobrir maneiras de todos nós trabalharmos mais. Para alcançar esse objetivo, trabalhos tiveram que ser criados para ser, efetivamente, inúteis. Grande quantidade de pessoas, na Europa e na América do Norte, em particular, passa toda sua vida de trabalho realizando tarefas que secretamente acredita não ser necessárias. O dano moral e espiritual que vem dessa situação é profundo. É uma cicatriz de lado a lado na nossa alma coletiva. Porém, quase ninguém fala sobre isso.

Por que a utopia prometida por Keynes nunca se materializou e ainda continua sendo avidamente aguardada desde os anos 60? O pensamento padrão atual é de que ele não imaginou o crescimento massivo no consumo. Dada a escolha entre menos horas e mais brinquedos e prazeres, nós coletivamente escolhemos a segunda opção. Isso apresenta uma boa fábula de moralidade, mas um momento de reflexão mostra que pode não ser verdade. Sim, nós testemunhamos a criação de uma variedade infinita de novos trabalhos e indústrias desde os anos 20, mas bem poucos têm a ver com a produção e distribuição de sushi, iPhones e sapatos da moda.

Então o que exatamente são esses novos trabalhos? Um recente relatório que comparou o emprego nos EUA entre 1910 e 2000 nos dá uma clara imagem (e noto que é praticamente o que se vê refletido no Reino Unido). Ao longo do último século, o número de trabalhadores empregados como domésticos na indústria e no campo colapsou drasticamente. Ao mesmo tempo, triplicou o de profissionais, administradores, secretários, vendedores e funcionários de empresas de serviços, passando de um quarto para três quartos do total de empregos. Em outras palavras, os trabalhos produtivos, como previsto, foram em grande parte automatizados (mesmo se você contar com todos os trabalhadores da indústria no mundo, incluindo as massas que fazem trabalho pesado na Índia e na China, eles já não representam uma porcentagem tão alta da população mundial, como costumava ser).

Mas em vez de permitir a redução maciça do horário de trabalho para dar liberdade à população mundial de perseguir seus próprios objetivos, prazeres, projetos e ideias, acabou inflacionando não apenas os setores de serviços e os administrativos, mas também a criação de indústrias inteiras, como a de serviços financeiros ou telemarketing, ou a expansão sem precedentes de setores como direito empresarial, administração acadêmica e de saúde, recursos humanos e relações públicas. E esses números nem sequer refletem todas essas pessoas cujo trabalho é prestar apoio administrativo, técnico ou de segurança para essas indústrias, sem mencionar toda a gama de setores secundários (tratadores de cães, entregadores de pizza na madrugada etc.), que existem apenas porque todo mundo está gastando muito do seu tempo trabalhando em todos os outros setores.

Esses trabalhos são o que proponho chamar de insignificantes.

É como se alguém começasse a criar empregos inúteis apenas para que nos mantivéssemos trabalhando. E precisamente aqui reside o mistério. No capitalismo, é exatamente isso o que não deveria acontecer. Claro, nos antigos e ineficientes estados socialistas como a União Soviética, onde o emprego era considerado tanto um direito quanto um dever sagrado, o sistema criava tantos postos quanto o número de trabalhadores (é por isso que uma loja de departamento soviética precisava de três funcionários para vender um pedaço de carne). Mas, claro, esse é o tipo de problema que a concorrência de mercado deve corrigir. Pelo menos de acordo com a teoria econômica, a última coisa que uma empresa com fins lucrativos vai fazer é gastar dinheiro com trabalhadores que realmente não precisa empregar. Ainda assim, de alguma maneira, isso acontece.

Enquanto as corporações fazem cortes cruéis de pessoal, as demissões e facões recaem invariavelmente na classe de pessoas que realmente estão fazendo, movendo, corrigindo e mantendo as coisas; por meio de alguma alquimia que não se consegue explicar, em última análise o número de assalariados dentro de um escritório parece se expandir e cada vez mais e mais empregados se encontram, não muito diferente dos trabalhadores soviéticos, trabalhando na verdade 15 horas, como Keynes profetizou, já que o restante do seu tempo eles gastam organizando ou participando de seminários motivacionais, atualizando o Facebook ou baixando séries de TV.

A razão para isso claramente não é econômica: é moral e política. A classe dominante percebeu que uma população feliz e produtiva com tempo livre em suas mãos é um perigo mortal (pense no que começou a acontecer quando isso se aproximou dos anos 60). Por outro lado, a sensação de que o trabalho é um valor moral em si e que qualquer um que reclama de se submeter a algum tipo de intensa disciplina trabalhista na maior parte das horas em que fica acordado não merece nada é algo extraordinariamente conveniente para essa classe.

Certa vez, ao contemplar o aparente crescimento interminável das responsabilidades administrativas nos departamentos acadêmicos britânicos, encontrei uma possível visão do inferno. Inferno é uma coleção de indivíduos que estão perdendo a maior parte do tempo trabalhando em tarefas de que não gostam e nas quais não são especialmente bons. Dizem que foram contratados por ser excelentes marceneiros, e então descobrem que precisam desperdiçar grande parte do tempo fritando peixe. Nem a tarefa precisa realmente ser feita — pelo menos o número de peixes que precisam fritar é bem limitado. Mas de algum jeito, todos se tornam tão obcecados com a resignação ao pensar que alguns de seus colegas de trabalho devem estar gastando mais tempo construindo armários e não fazendo sua parte na responsabilidade de fritar peixes, que, então, em pouco tempo há pilhas intermináveis e inúteis de peixe frito mal feito se acumulando no trabalho, e isso é tudo o que alguém realmente faz.

Acho que atualmente essa é uma descrição bastante precisa das dinâmicas morais da nossa própria economia.

*

Agora percebo que um argumento desses vai encontrar objeções imediatas: “Quem é você para dizer quais são os empregos realmente ‘necessários’? O que é necessidade, afinal? Você é um professor de antropologia, qual a ‘necessidade’ disso?” (Sem dúvida, muitos leitores de tabloide considerariam a existência do meu emprego como a própria definição de desperdício de dinheiro público.) E, em certo sentido, isso obviamente é verdade. Não deve haver uma medida objetiva de valor social.

Eu não me atreveria a dizer a alguém que está convencido de contribuir significativamente para o mundo que, na realidade, ele não está. Mas o que dizer sobre as pessoas que estão se convencendo de que seus empregos não têm sentido? Algum tempo atrás retomei o contato com um amigo de escola que não via desde os 12 anos. Espantei-me ao descobrir que nesse período ele primeiro virou poeta depois líder de uma banda indie de rock. Eu tinha ouvido algumas das músicas dele no rádio sem me dar conta de que o cantor era alguém que eu conhecia. Era óbvio que ele era brilhante, inovador e sem dúvida seu trabalho iluminava e melhorava a vida das pessoas em todo o mundo. Entretanto, depois de alguns álbuns sem sucesso, ele perdeu seu contrato e, atormentado por dívidas e com uma filha recém-nascida, acabou por, como dizia, “tomar a decisão padrão de tanta gente sem rumo: a faculdade de direito”. Agora ele é um advogado corporativo de uma proeminente empresa de Nova York. Ele foi o primeiro a admitir que seu trabalho era totalmente sem sentido, não contribui em nada para o mundo e, na sua opinião, não deveria nem existir.

Há muitas perguntas que alguém poderia fazer aqui, começando com: o que se pode dizer sobre nossa sociedade, que parece criar uma demanda extremamente limitada para talentosos músicos-poetas mas uma demanda infinita para especialista em direito empresarial? (Resposta: se 1% da população controla grande parte da riqueza disponível, o que chamamos de “mercado” reflete o que eles pensam ser útil ou importante, não o que pensa qualquer outra pessoa.) Mas, ainda mais, isso mostra que a maioria das pessoas nesses empregos estão, em última análise, cientes disso. Na verdade, não tenho certeza se alguma vez conheci um advogado empresarial que não achasse seu trabalho insignificante. O mesmo vale para quase todos os novos mercados descritos acima. Há toda uma classe de profissionais assalariados — encontre-os em alguma festa e diga que você faz algum trabalho interessante (como antropologia, por exemplo) que evitarão discutir até mesmo a linha de trabalho deles. Dê-lhes alguns drinques e eles vão se lançar em discursos inflamados sobre quão inútil e estúpido o trabalho deles é.

Há uma profunda violência psicológica aqui. Como se pode pelo menos começar a falar sobre dignidade no trabalho quando secretamente se percebe que o trabalho de alguém nem deveria existir? Como não criar um sentimento de profunda raiva e resignação? Entretanto o gênio peculiar da nossa sociedade fez que seus governantes conseguissem engendrar um meio, como no exemplo dos fritadores de peixe, de garantir que essa raiva seja dirigida precisamente contra aqueles que, na verdade, fazem algum trabalho significativo. Por exemplo, em nossa sociedade, parece haver uma regra geral pela qual quanto mais obviamente o trabalho de uma pessoa beneficia alguém, menor é a chance de ela ser paga por isso. De novo, é difícil encontrar uma medida objetiva, mas um jeito fácil de ter uma noção é perguntar: o que aconteceria se uma classe inteira de trabalhadores simplesmente desaparecesse? Diga o que quiser sobre enfermeiros, catadores de lixo ou mecânicos: é óbvio que, se eles desaparecessem numa nuvem de fumaça, os resultados seriam imediatos e catastróficos. Um mundo sem o trabalho de professores ou estivadores logo estaria em apuros — até mesmo um mundo sem escritores de ficção científica ou músicos de ska seria um lugar menor. Mas não está totalmente claro como a humanidade sofreria se todos os CEOs de fundos de investimento privado, lobistas, pesquisadores de relações públicas, atendentes de telemarketing, oficiais de justiça ou consultores legais igualmente sumissem. (Muitos suspeitam que haveria uma melhora.) No entanto, fora um punhado de exceções bem alardeadas (médicos), a regra continua muito válida.

Ainda mais perversa parece ser a percepção de que é dessa maneira que as coisas deveriam ser. Esse é um dos segredos fortes do populismo de direita. Você pode vê-lo quando os tabloides lançam açoites de ressentimento contra os metroviários por paralisarem Londres durante disputas trabalhistas: o simples fato de os metroviários conseguirem paralisar Londres mostra o quanto seu trabalho é realmente necessário, mas isso parece ser exatamente o que incomoda as pessoas. Isso é ainda mais claro nos EUA, onde republicanos têm tido sucesso ao direcionar esse ressentimento contra professores ou trabalhadores da indústria automotiva por causa de salários e benefícios supostamente altos (mas, de modo muito significativo, não o fazem contra os administradores de escolas e gestores da indústria, que realmente causam os problemas). É como se lhes dissessem: “Mas você precisa ensinar as crianças! Ou fazer carros! Você precisa ter empregos de verdade! E ainda por cima tem coragem de esperar por aposentadoria e plano de saúde?”

Se alguém tivesse concebido um sistema de trabalho perfeitamente ajustado para manter o poder do mercado financeiro, seria difícil saber como poderia ter feito melhor. Os trabalhadores que realmente produzem são implacavelmente pressionados e explorados. O restante está dividido entre um estrato aterrorizado e universalmente insultado de desempregados e outro maior, representado basicamente pelos que são pagos para não fazer nada em cargos destinados a simpatizar com as perspectivas e sensibilidades da classe dirigente (gerentes, administradores etc.) — e, em particular, seus avatares financeiros — e, ao mesmo tempo, para difundir o sentimento latente contra qualquer um cujo trabalho tenha valor social claro e indiscutível. É evidente que esse sistema não foi conscientemente concebido. Ele surgiu de quase um século de tentativas e erros. E é a única explicação para o fato de, apesar de nossas capacidades tecnológicas, não termos uma jornada de trabalho de 3 a 4 horas por dia.


Revisado em 23/12/2014. Pequenos ajustes e correções.

Notas do tradutor

1. A expressão “bullshit jobs”, no título original, pode ser traduzida como “empregos de merda” — Sobre o Fenômeno dos Empregos de Merda, por exemplo — , porém, no sentido deste texto, “bullshit” também equivale a “insignificante”, “besteira”, “tolice”.

Traduzido e reproduzido com autorização dos proprietários do conteúdo.

2. David Graeber é professor de antropologia na London School of Economics.

3. A Grã-Bretanha não é um país, e sim uma ilha na qual estão contidas quatro nações: Escócia, Inglaterra, Irlanda e País de Gales. Mantivemos a palavra usada pelo autor.

Os filhos da ditadura

generalMuitos anos atrás, eu tinha uma amiga que engravidou. Ela tinha já um filho que, se bem me lembro, tinha 5 anos e ficou entusiasmado com a perspectiva de ganhar um irmãozinho. O garoto começou a chamar o bebê que ainda estava na barriga da mãe de André e, quando nasceu, acabou recebendo esse nome.

O irmão mais velho curtiu a chegada de André, mas aos poucos foi se desencantando. O bebê só ficava o dia todo dormindo, não era aquele irmão companheiro de brincadeiras com quem ele sonhava. E, ainda por cima, André roubava todas as atenções de quem estivesse por perto. Assim, o irmão mais velho já não era mais o reizinho da casa por causa dele.

Então, algumas semanas depois do nascimento de André, o garoto de 5 anos chegou para a mãe e disse que já era hora de o bebê ir embora. A mãe disse que isso não seria possível, que André não tinha para onde ir. Então, o garoto disse: “Já que ele não tem para onde ir, a gente mata ele e resolve o problema.”

É claro que André continuou vivo. Como minha amiga morava a 400 quilômetros de distância, acabei perdendo o contato com ela, mas acredito que hoje André e seu irmão sejam grandes amigos e companheiros. Afinal, o garoto que na época tinha 5 anos era apenas uma criança e, como tantos de sua idade, via muito filme idiota na TV.

Por que estou contando essa história? Porque hoje parece difícil achar alguém com mente adulta. A maior parte das pessoas que vejo por aí são crianças crescidas. Uma criança ainda não tem capacidade de considerar as necessidades dos outros à sua volta, vê apenas os seus próprios anseios, que para ela são urgentes. Então, quando as coisas não correm como o desejado, sugerem soluções como matar o oponente, anular eleições, pedir golpes militares…

E qual seria o motivo de se encontrar tantas crianças crescidas nesse País? A explicação pode não ser muito evidente, mas é bem simples: a ditadura militar, que oficialmente terminou há quase 30 anos, continua a gerar frutos. Militares não discutem ordens, apenas as cumprem. No poder, levaram essa máxima ao sistema educacional brasileiro. Era proibido questionar. Assim, criaram uma geração que não é capaz de dialogar, de ouvir o próximo – seja aliado ou oponente –, de buscar soluções negociadas… Aliás, desconfio que essa situação já perdura por duas ou três gerações.

Essa incapacidade de dialogar acaba recorrendo a soluções de violência, física ou moral. Em vez de encarar problemas, desqualifica-se quem os aponta. Em vez de conversar, parte-se para o pugilato. É esse o pessoal que pede anulação das eleições e intervenção militar. Quando vão crescer?

8 de março?

Dia da mulher não é 8 de março; é todo dia.

Lugar de mulher não é na cozinha, nem no quarto nem na sala… É em todo lugar.

Mulher não é mãe, irmã, companheira… É ser humano.

Mulher não gosta de sapato, roupa, flores, maquiagem… Gosta apenas de viver feliz.

Todo o resto é produto de uma sociedade que insiste em colocar rótulos em tudo e fazer as pessoas se sentirem inseguras para, assim, perpetuar o consumo de coisas supérfluas.

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Mulheres pobres

O programa Mulheres Ricas está realmente dando o que falar no twitter. Eu mesma não assisti o episódio que foi ao ar na segunda-feira, mas com tantos links e falatório, já estou por dentro de tudo. Só não entendi o por quê do título. Convenhamos que há vários tipos de riqueza – material, espiritual, artística… –, mas exibicionismo não pode ser assim considerado. O que é exibido no programa é uma sucessão de lugares comuns e fantasias – algumas delirantes até – acerca do que o povão pensa que é ser rico.

Muitos anos atrás um casal de amigos abriu um estabelecimento comercial promissor. Tratava-se de uma loja de pastéis em um ponto badalado dos jardins. Ganhavam dinheiro, mas a custa de um trabalho insano. “Queria ter negócio próprio e na minha cabeça eu não iria trabalhar no dia em que preferisse ficar em casa; mas tem conta de aluguel, luz, funcionário etc e se deixo de abrir um dia, o prejuízo é muito alto”, avaliou Henrique depois de algum tempo. Sua conclusão é que como empresário ele tinha muito menos liberdade do que como empregado, pois tinha virado escravo do negócio.

Ricos de verdade não andam por aí se exibindo, até por medo de sequestro. Alguns realmente tem boa vida, mas são exceções, e não a regra. O rico fica a todo momento pensando em sua empresa e em como administrar seus bens, coisa que ocupa muito tempo. Nada a ver com a pose do sujeito que fica o dia todo bebendo champanhe e comendo caviar – a caricatura sempre presente nos enredos de novelas que passou a ser confundida com um retrato fiel do rico pelo grande público.

Boa parte dos ricos verdadeiros que acumulam cifrões também acabam reunindo riqueza cultural, pois uma das boas coisas que o dinheiro pode comprar é viagens e acesso ao que há de melhor nas artes. Adquirem assim um senso estético refinado, mesmo quando não têm mais dinheiro (o que acontece com frequência com famílias tradicionais depois de algumas gerações). Bem diferente de gente sem nenhum senso estético, que compra o que há de mais espalhafatoso apenas para mostrar (mesmo que não ostensivamente) que estes artigos tinham etiquetas com muitos zeros. Isso é algo de uma pobreza impressionante!

Por que será que as pessoas se recusam a enxergar a riqueza que existe em suas próprias vidas – com os relacionamentos, acontecimentos do dia a dia, qualidades pessoais, atitudes etc. – e ficam a sonhar com a vida idiota dos “ricos” que a TV mostra?

Cães que mordem e cadelas que vão para o Céu

Há uma semana, minha cachorrinha Tybie morreu. Andavamos na rua quando ela foi atacada por um cão grande, saído de uma casa em que alguém havia esquecido um portão aberto. Há 11 anos, convivia com a Tybie, que funcionava como uma máquina de carinho ininterrupto para mim. Felizmente, a irmã dela, Zuvy, saiu ilesa do ataque. Mas estou muito triste com isso.

Curiosamente, encontrei uma história no facebook que ajudou a me animar. Foi por acaso. Um de meus amigos viu a história como post de um dos amigos dele e comentou que era interessante, o que me levou a ler. Traduzi o post para compartilhar com vocês porque acho que vale.

“Nossa velha cadela Abbey, de 14 anos, morreu no mês passado. No dia seguinte à sua morte, nossa filha de 4 anos, Meredith, chorava e falava sobre o quanto ela sentia falta de Abbey. Ela perguntou se poderíamos escrever uma carta para Deus para que Ele reconhecesse Abbey quando ela chegasse ao Céu. Eu lhe disse que poderíamos fazer isso e então ela ditou as seguintes palavras:

 

Querido Deus,

 

Por favor, poderia tomar conta da minha cachorra? Ela morreu ontem e está com você no Céu. Eu sinto muita falta dela. Estou contente porque o senhor deixou que eu tivesse ela como bicho de estimação, mesmo quando ela ficou doente.

Espero que o senhor brinque com ela. Ela gosta de nadar e de brincar com bolas. Estou mandando uma foto dela para o senhor saber que ela é a minha cachorra quando a vir. Sinto falta dela mesmo.

Com amor,

Meredith

 

Colocamos a carta em um envelope com uma foto de Abbey e Meredith e o endereçamos a Deus/Céu. Também colocamos o nosso endereçocomoremetente. Então, Meredith colocou muitos selos na parte da frente do envelope porque ela disse que seriam preciso muitos selos para que a carta chegasse até o Céu. Naquela tarde, ela colocou a carta na caixa de correspondência da agência postal. Alguns dias depois, ela perguntou se Deus ainda não teria recebido a carta. Eu lhe disse que achava que Ele já estava com ela.

Ontem, encontramos um pacote embrulhado em papel dourado na entrada da nossa casa em que estava escrito “para Meredith” em uma caligrafia desconhecida. Meredith o abriu. Dentro, havia um livro do sr.Rogerschamado “Quando morre um bichinho de estimação”. A carta que escrevemos para Deus estava pregada com fita adesiva, junto com o seu envelope aberto, na parte de dentro da capa do livro. Na página oposta estava a foto de Abbey e Meredith com o seguinte bilhete:

 

Querida Meredith,

 

Abbey chegou bem ao Céu. A foto ajudou bastante e eu a reconheci de imediato.

Abbey não está mais doente. O espírito dela está aqui comigo da mesma forma que está em seu coração. Abbey adorou ser sua cachorra. Como não precisamos de corpos no Céu, não tenho bolsos para guardar sua foto e, por isso, estou mandando ela de volta para você com esse livro, para você guardar e ter algo para se lembrar de Abbey.

Obrigado por sua linda carta e agradeço a sua mao por ajudá-la a escrevê-la e a mandá-la para mim. Que mãe maravilhosa você tem. Eu a escolhi especialmente para você. Envio minhas benção todo dia e lembre-se de que eu a amo muito. Aliás, é fácil me encontrar. Estou em qualquer lugar onde existe amor.

 

Com amor, Deus”

O papel dos bancos

Dizem que a história se repete duas vezes: a primeira como tragédia e a segunda já é uma avacalhação: farsa, segundo alguns; ópera bufa, em outras versões; ou simplesmente como uma piada de mau gosto. A atual crise das finanças globais parece ser tudo isso (farsa, ópera bufa e piada de mau gosto), além de outras coisas mais.

Para quem não se lembra, duas ou três décadas atrás vivíamos a crise da dívida do Terceiro Mundo. A economia brasileira ia mal das pernas, a dívida externa era impagável e o futuro parecia negro (talvez por isso que o Brasil elegeu um presidente collorido, mas a situação continou preta). Hoje, são os países que eram ricos os que não conseguem pagar suas dívidas. Mas a situação levanta uma questão que ainda não foi devidamente abordada: qual o papel dos bancos?

A rigor, os bancos seriam (ou deveriam ser) um serviço capaz de promover o desenvolvimento das nações. Mas eles foram se sofisticando, criaram novos serviços e começaram a gerir fortunas.

Nos anos 70, seus cofres foram inundados por petrodólares (para quem não sabe, quando o preço do petróleo começou a subir, os países árabes começaram a usar bancos ocidentais para estocar os dólares que começaram a aparecer em profusão em suas contas) e eles não sabiam o que fazer com essa grana. Resolveram então emprestar para os países do Terceiro Mundo, que eram carentes de dinheiro. Chegava-se ao cúmulo de resolver em uma única tarde um crédito de algumas dezenas de milhões de dólares. Ou seja, os banqueiros foram irresponsáveis.

Veio a crise da dívida e milhares de miseráveis no Terceiro Mundo foram penalizados pela incompetência dos banqueiros. Discutia-se na época se os acionistas pagariam pela inadimplência dos governos de alguns países e, claro, tentava-se atribuir a culpa a esses governantes. Ao perceberem que não teriam como receber tudo o que pretendiam, os bancos abriram mão de algumas exigências absurdas e a tal crise se resolveu.

Nos anos 90, houve um período de bonança econômica e os bancos, novamente, não sabiam o que fazer com o dinheiro guardado em seus cofres. Deram o mesmo golpe, oferecendo dinheiro barato e depois elevando juros ao ponto de as dívidas ficarem impagáveis. Só que desta vez, emprestaram aos ricos (que agora são ex-ricos).

E, mais uma vez, milhões de pessoas ficam sem emprego e enfrentam dificuldades para garantir os dividendos dos acionistas, que nunca se deram ao trabalho de fiscalizar o que os gestores de suas empresas faziam (apesar das babaquices que se veem nas novelas de TV, dinheiro impõe muita responsabilidade; pelo menos é assim na vida real). A grande farsa que se apresenta é que em vez de discutir o papel dos bancos, discute-se cortes em orçamentos e em empresas para pagar dívidas impagáveis. Por que ninguém questiona o verdadeiro papel dos bancos, que é o de ser um agente promotor do desenvolvimento?

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