o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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Vamos culpar crianças por ataques de pedófilos?

Infelizmente, verifico que o assunto mais importante para a vida de todos nós passa quase despercebido em meio a uma série de acontecimentos que, nos últimos dias, chamaram mais atenção. Trata-se da decisão vergonhosa do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de considerar que um adulto não comete estupro contra meninas de 12 anos caso elas sejam “prostitutas”.

Há várias questões envolvidas nisso e talvez a minha indignação atente contra a objetividade que a análise de um fato tão escandaloso merece. De início, há o velho vício de culpar a vítima. Ou seja, se é prostituta, vale tudo. A continuar essa argumentação, logo vamos responsabilizar as crianças por ataques de pedófilos, esses “pobres inocentes”, por algum motivo estaparfúdio qualquer. Elas seriam culpadas, por exemplo, de estarem passando na rua no momento em que um pedófilo estava por perto e, por isso, atraissem a sua atenção.

Mas acho que o problema maior aí é a questão de como a sexualidade é tratada na sociedade brasileira. Vemos diariamente programas de TV em que as crianças são estimuladas a exibir comportamentos sexualizados como se fossem bricandeira. É o caso de aberrações como a dança da garrafa. Muitas empresas, inclusive, lucram com isso, lançando produtos como maquiagem infantil.

Enfim, para a sociedade brasileira, sexo é algo que deve ser sempre estimulado. E também sexo representa poder. Mulheres atraentes são consideradas poderosas e é isso o que entra na cabeça das crianças (mesmo em programas infantis, onde até as roupas de paquitas e congêneres são insinuantes). Outro ponto que é supervalorizado é o dinheiro, um dos principais focos de nossa indústria cultural – representada por novelas, minisséries, músicas e tudo o mais que representa uma visão de mundo e é consumido em massa, o que significa que é onde as crenças do povo brasileiro se cristalizam.

Essa produção cultural – que se sofisticou, mas nem sempre sua qualidade é indiscutível – costuma martelar na cabeça de cada brasileiro (e as crianças, logicamente, são mais vulneráveis a isso) que o dinheiro é a coisa mais importante da vida, que o dinheiro é tão desejável a ponto de ser o caminho natural fazer-se qualquer coisa por ele…

Não é muito difícil ver como isso estimula a prostituição infantil, de crianças que brincam que são adultas e estão se dando bem na vida. Muitas vezes, meninas começam a fazer programas sem o conhecimento dos pais (e há algumas que são até estimuladas por genitores, que querem explora-las).

Mas criança alguma tem maturidade para entender o que significa essa opção, e muito menos condições para arcar sozinha com as consequências. Os riscos, que podem inclusive estragar todo o futuro dela, são muitos – incluem inúmeras possibilidades, como gravidez, doenças venéreas, violência desmesurada (tanto física quanto emocional)…

O que o STJ fez foi dizer que uma criança de 12 anos tem condições de avaliar decisões que vão influir em toda a sua vida com a capacidade que muitos adultos sequer têm. Trata-se de uma aberração, pois o Judiciário existe justamente para proteger os mais fracos e manter o equilíbrio da vida em sociedade. Ao tomar a decisão de defender um adulto (que certamente sabia que buscava sexo com uma criança) em detrimento da parte mais fraca, o Judiciário parece ter se desviado do caminho correto.

Ainda não sei bem como, mas proponho que a sociedade civil se mobilize para tentar reverter essa decisão no Supremo Tribunal Federal (STF). Vamos fazer passeatas, manifestos e tudo o que for necessário para apoiar a ação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que convocou o Advogado-Geral da União e o Procurador-Geral da República para tomar as medidas judiciais contra a infeliz decisão do STJ.

Não se pode mais levar o Carnaval a sério!

              O espetáculo momesmo do roubo dos votos dos jurados do carnaval paulistano, bem diante das câmaras de TV e debaixo do nariz da polícia, só nos leva a uma conclusão: não se pode mais levar nem mesmo o carnaval a sério! Afinal, embora pouca gente saiba, carnaval é algo muito sério.

Há cerca de dez anos, um amigo, conhecido jornalista, comentava acerca de uma matéria que tinha feito, e que não conseguiu veicular. Ele defendia que se aplicasse as regras do carnaval à política no Brasil. Se uma escola de samba atrasa, perde pontos. Se as fantasias e adereços estão irregulares, idem. Com perda de pontos, escolas de samba perdem verbas e oportunidades. Enquanto isso, políticos vivem faltando às sessões, atrasam votações e fazem uma série de peraltices sem que nada aconteça… Pelo menos, até a semana passada era assim.

O carnaval tem muita seriedade também no tocante aos negócios. Além de promover a imagem do Brasil em todo o mundo, movimenta uma infinidade de ações de marketing, cria riquezas para redes de TV, movimenta o setor de turismo e aquece os negócios dos fabricantes de cerveja gelada… Só parece não trazer muito benefício monetário para o sambista que economiza o ano todo para brilhar na avenida com o luxo que qualquer pobre gosta (Joãozinho Trinta foi um gênio ao perceber que só intelectual gosta de miséria porque os pobres adoram é o luxo).

Mas agora, São Paulo mais uma vez inovou. Tucanos parecem gostar de privatização mesmo, tanto que privatizaram a PM e a Justiça, que serve a interesses privados. Não importa que o “dono” do Pinheirinho deva milhões ao Erário, coloca-se 2 mil PMs para defender o seu direito de propriedade. Mas não se coloca policiamento adequado para um dos mais importantes eventos do calendário de festas da cidade. E olha que todo ano tem briga e confusão durante o evento da apuração do carnaval paulistano.

Enfim, o carnaval paulistano agora parece brincadeira. Não dá mais para brincar nesse carnaval.

É preciso dar nome aos mortos

              A barbárie do Pinheirinho ainda terá muitos desdobramentos. Alguns levarão anos, como a estimativa dos danos aos moradores expulsos de suas casas. Enquanto Geraldo Alckmin anuncia que os moradores receberão seis meses de aluguel social como se isso fosse capaz de abafar suas dores, os prejuízos deles ficarão por toda a vida.

Além de carregarem até o final de seus dias lembranças sufocantes, a expulsão dos moradores de suas casas está colocando em risco suas próprias vidas. Muitos não têm mais endereço e, assim, ficam sem condições sequer de se candidatarem a um emprego. Alguns viviam com pequenos bicos e agora não tem como se desdobrar para conseguir sustento. As situações precárias a que estão sendo submetidos prejudica sua saúde. Talvez alguns morram com crises de insuficiência respiratória… Quantificar esses danos é uma tarefa que vai durar alguns anos, talvez décadas.

Mas há um ponto urgente, que parece estar se perdendo no caos e espanto que essa situação provoca. Inúmeras testemunhas dizem ter visto pessoas, inclusive pelo menos uma criança, sendo mortas durante a desocupação. Váris depoimentos denunciam insistentemente que a PM de Alckmin deu sumiço nos corpos – algo que era comum na época da ditadura militar e que pensavamos que fazia parte do passado. Só não é compreensível por que ainda não se deu nome aos mortos, a melhor maneira de deixar sua memória viva e denunciar as atrocidades do governo paulista.

Não é possível que ninguém da comunidade do Pinheirinho saiba quem foram as vítimas. E também não é possível se denunciar o que houve sem nomes, casos concretos. Sem os nomes, esses mortos viram fantasmas que caem na vala comum do esquecimento.

Uma piscina de sangue

              Uma piscina cheia de sangue. É essa a imagem que me veio do condomínio de luxo que provavelmente será erguido no Pinheirinho, após a desocupação. Além da piscina de sangue, haverá ruas ladrilhadas com caveiras e ossos usados na sinalização. A região será tranquila, com o silêncio cortado apenas por murmúrios de almas penadas. Mas esse múrmurio não será ouvido uma vez que os moradores, de apurado gosto musical e bom poder aquisitivo, terão aparelhos de som comparáveis a trios elétricos para tocar rock, mpb e até mesmo o democrático funk.

A agilidade da Justiça Paulista no caso, famosa pela sua ausência de celeridade, é surpreendente. A prisão de Pimenta Neves, assassino confesso, demorou 13 anos, por exemplo. Há processos que ficam décadas nas varas civeis. Por que tanta pressa, principalmente levando-se em conta que havia um acordo para que se aguardasse 15 dias enquanto se negociava uma solução para o caso?

Aliás, por que a juiza responsável pelo caso foi embora para casa na sexta-feira antes de homologar esse acordo? E qual a razão de se proceder à desocupação assim, a toque de caixa, em pleno final de semana, quando haveria dificuldade de se conseguir uma liminar para deter a ação? E o aparato policial, de 2 mil homens fortemente armados para expulsar miseráveis de suas casas, também provocam perguntas. Qual o custo dessa desocupação? Por que esses homens não estavam trabalhando no atendimento à população?

Praticamente todas as possibilidades de respostas a essas perguntas indicam a existência de interesses escusos nessa história, que me enoja. Mas não vou repetir aqui muita coisa que outros blogueiros e twiteiros disseram. Não tenho estômago. Apenas acho que devemos continuar repercutindo essa história até o ponto em que ninguém mais vá querer comprar uma mansão no condomínio de luxo Pinheiro.

O BBBuraco é mais embaixo

                O caso do estupro na casa do BBB está dando o que falar nas redes sociais e não vou ficar chovendo no molhado e repetir que o fato de a menina não ser recatada não justifica, que não foi racismo, que o vídeo foi transmitido para todo o Brasil, que TV é uma concessão pública etc. Apenas acho que algumas outras questões passaram batido. A principal é a atitude da Globo de tentar vender gato por lebre.

No domingo a noite, Pedro Bial, que já foi um jornalista de grande credibilidade antes de virar essa caricatura que hoje aparece no vídeo, praticamente começou o programa com a frase: “O amor é lindo!” Foi uma tentativa de querer transformar um estupro em um caso de amor. Aliás, a própria maneira como a produção agiu, perguntando o que houve à participante que foi violentada, enquanto inconsciente, é absurda. Óbvio que alguém inconsciente não sabe o que aconteceu enquanto estava apagada. Então, nada mais era do que uma tentativa de distorcer fatos e fazer com que ela dissesse que nada houve e se colocasse uma pedra sobre o assunto.

Mudar a realidade em um “reality show” é, no mínimo, um contrasenso. Agora a tentativa de fazer com que a “sister” acreditasse que nada aconteceu é um segundo estupro. Aliás, nem os telespectadoes escaparam disso. Na segunda-feira, Bial disse para o Brasil inteiro que Daniel foi expulso do programa por “desrespeitar o regulamento”, sem explicar que item do regulamento foi desrespeitado (aliás, não há qualquer menção a esse regulamento para que possamos consultá-lo).

Sonegou a informação de que nas 24 horas anteriores as redes sociais cobraram a cabeça do rapaz e essa foi uma exigência da polícia para manter o programa no ar. E os telespectadores que não participam de redes sociais ficaram “boiando”. Esses mereciam no mínimo uma satisfação, uma explicação. Aliás, os participantes da casa, também.

Outra questão que merece debate é a atitude das pessoas diante de uma denúncia grave como essa. Surpreendi-me com um amigo, pelo qual tenho muita consideração, que acabou incorporando o santo do Rafinha Bastos em seus comentários. Aliás, várias pessoas chegaram a dizer que tudo deveria ser encenação, que quem entra num programa como o BBB está sujeito a isso, que não se poderia esperar outra coisa… Ou seja, segundo essa argumentação, denúncia de estupro só merece ser apurada se for na minha casa, ou na sua; não na rua, no metrô, no puteiro, no BBB…

Desviei de provocações no Twitter e no Facebook. Houve quem disse que se estava condenando o sujeito antes do devido processo, sem direito à defesa ampla e contraditório etc. Como se não houvesse um crime que foi transmitido para todo o Brasil, e com autoria conhecida. O que a Justiça vai discutir é as circunstâncias, os atenuantes (se houver) e a pena.

Impressiona ver que crime transmitido pela TV é considerado obra de ficção nesse País!

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Mulheres pobres

O programa Mulheres Ricas está realmente dando o que falar no twitter. Eu mesma não assisti o episódio que foi ao ar na segunda-feira, mas com tantos links e falatório, já estou por dentro de tudo. Só não entendi o por quê do título. Convenhamos que há vários tipos de riqueza – material, espiritual, artística… –, mas exibicionismo não pode ser assim considerado. O que é exibido no programa é uma sucessão de lugares comuns e fantasias – algumas delirantes até – acerca do que o povão pensa que é ser rico.

Muitos anos atrás um casal de amigos abriu um estabelecimento comercial promissor. Tratava-se de uma loja de pastéis em um ponto badalado dos jardins. Ganhavam dinheiro, mas a custa de um trabalho insano. “Queria ter negócio próprio e na minha cabeça eu não iria trabalhar no dia em que preferisse ficar em casa; mas tem conta de aluguel, luz, funcionário etc e se deixo de abrir um dia, o prejuízo é muito alto”, avaliou Henrique depois de algum tempo. Sua conclusão é que como empresário ele tinha muito menos liberdade do que como empregado, pois tinha virado escravo do negócio.

Ricos de verdade não andam por aí se exibindo, até por medo de sequestro. Alguns realmente tem boa vida, mas são exceções, e não a regra. O rico fica a todo momento pensando em sua empresa e em como administrar seus bens, coisa que ocupa muito tempo. Nada a ver com a pose do sujeito que fica o dia todo bebendo champanhe e comendo caviar – a caricatura sempre presente nos enredos de novelas que passou a ser confundida com um retrato fiel do rico pelo grande público.

Boa parte dos ricos verdadeiros que acumulam cifrões também acabam reunindo riqueza cultural, pois uma das boas coisas que o dinheiro pode comprar é viagens e acesso ao que há de melhor nas artes. Adquirem assim um senso estético refinado, mesmo quando não têm mais dinheiro (o que acontece com frequência com famílias tradicionais depois de algumas gerações). Bem diferente de gente sem nenhum senso estético, que compra o que há de mais espalhafatoso apenas para mostrar (mesmo que não ostensivamente) que estes artigos tinham etiquetas com muitos zeros. Isso é algo de uma pobreza impressionante!

Por que será que as pessoas se recusam a enxergar a riqueza que existe em suas próprias vidas – com os relacionamentos, acontecimentos do dia a dia, qualidades pessoais, atitudes etc. – e ficam a sonhar com a vida idiota dos “ricos” que a TV mostra?

Para dominar o mundo…

Lembro-me de uma única vez que um trailer foi decisivo para me levar a assistir a um filme. Na verdade, foi uma única cena. Os marcianos invadiam a Terra e entravam em um corpo a corpo com os seres humanos nas cidades deste planeta. Um terráqueo em fuga acaba encurralado pelo alien em um beco e resolve mudar de tática. Puxa um cartão do bolso de seu paletó e diz: “Se vocês querem dominar esse planeta, vão precisar de um bom advogado. Por um acaso, sou advogado e posso prestar serviços para vocês. Aqui está o meu cartão.” Imediatamente, ele é fulminado por um raio que sai da arma alienígena.

O filme é “Marte Ataca”, uma sátira de películas ao estilo de “A Guerra dos Mundos”, mas a perspicácia dessa cena talvez seja a mais aguçada que já vi no cinema de entretenimento ao colocar a observação de que advogados podem transformar seus clientes nos donos do mundo. Os fatos que observamos hoje mostram que a ideia não é caricata. Muito pelo contrário, é a pura realidade.

O movimento Ocupe Wall Street, por exemplo, questiona o fato de o sistema financeiro estar estruturado para favorecer poucos em detrimento de muitos. Nos EUA, eles reclamam que os bancos colocaram artifícios nos contratos imobiliários que levaram a população a dever tanto que praticamente restou-lhe apenas a roupa do corpo.Aqui, quem não foi surpreendido por taxas de cartão de crédito ou de cheque especial? E ao questionar, descobre-se que essas taxas estavam previstas nas entrelinhas dos contratos. Ou, se não estavam, quem tem tempo e dinheiro para recorrer à Justiça contra isso. O pior é que quase sempre a administradora ou o banco reajustam, unilateralmente, o valor de taxas e multas e fazem os clientes pensarem que eles têm a obrigação de pagar o que essas empresas pedem.

Multinacionais de vários outros setores também recorrem a advogados para dominar o mundo. Primeiro com lobby para a adoção de normas de licenciamento a seu favor em todo o globo. Depois, para cobrar a aplicação dessas normas. Assim, empresas que registram patentes de transgênicos, por exemplo, vão cobrar de agricultores simplórios dízimo através dos tribunais. Alegam que têm direito a parte da produção que foi obtida a partir de suas sementes. Poderá chegar o dia em que gravadoras poderão cobrar pelos direitos de reprodução de músicas tocadas em festas particulares!

O grande porém acerca do domínio do mundo sem armas por parte de grandes corporações, entretanto, é ainda mais aterrorizante (sim, são empresas terroristas!). Elas tentam submeter governos a seus propósitos. Em várias crises recentes, inclusive no Brasil, vemos que os Tesouros nacionais transferem recursos a bancos sob o argumento de que não se pode deixar o sistema financeiro quebrar, o que levaria o país à falência. Esses recursos são “emprestados” sem garantias a juros de pai para filho. No Brasil, isso ganho o nome de Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional).

Queria deixar bem claro que não tenha nada contra advogados que trabalhem em prol da Justiça, mas sim contra aqueles que buscam dominar o mundo e torná-lo mais injusto.

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