o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Arquivo para a categoria ‘política’

É preciso dar nome aos mortos

              A barbárie do Pinheirinho ainda terá muitos desdobramentos. Alguns levarão anos, como a estimativa dos danos aos moradores expulsos de suas casas. Enquanto Geraldo Alckmin anuncia que os moradores receberão seis meses de aluguel social como se isso fosse capaz de abafar suas dores, os prejuízos deles ficarão por toda a vida.

Além de carregarem até o final de seus dias lembranças sufocantes, a expulsão dos moradores de suas casas está colocando em risco suas próprias vidas. Muitos não têm mais endereço e, assim, ficam sem condições sequer de se candidatarem a um emprego. Alguns viviam com pequenos bicos e agora não tem como se desdobrar para conseguir sustento. As situações precárias a que estão sendo submetidos prejudica sua saúde. Talvez alguns morram com crises de insuficiência respiratória… Quantificar esses danos é uma tarefa que vai durar alguns anos, talvez décadas.

Mas há um ponto urgente, que parece estar se perdendo no caos e espanto que essa situação provoca. Inúmeras testemunhas dizem ter visto pessoas, inclusive pelo menos uma criança, sendo mortas durante a desocupação. Váris depoimentos denunciam insistentemente que a PM de Alckmin deu sumiço nos corpos – algo que era comum na época da ditadura militar e que pensavamos que fazia parte do passado. Só não é compreensível por que ainda não se deu nome aos mortos, a melhor maneira de deixar sua memória viva e denunciar as atrocidades do governo paulista.

Não é possível que ninguém da comunidade do Pinheirinho saiba quem foram as vítimas. E também não é possível se denunciar o que houve sem nomes, casos concretos. Sem os nomes, esses mortos viram fantasmas que caem na vala comum do esquecimento.

Para dominar o mundo…

Lembro-me de uma única vez que um trailer foi decisivo para me levar a assistir a um filme. Na verdade, foi uma única cena. Os marcianos invadiam a Terra e entravam em um corpo a corpo com os seres humanos nas cidades deste planeta. Um terráqueo em fuga acaba encurralado pelo alien em um beco e resolve mudar de tática. Puxa um cartão do bolso de seu paletó e diz: “Se vocês querem dominar esse planeta, vão precisar de um bom advogado. Por um acaso, sou advogado e posso prestar serviços para vocês. Aqui está o meu cartão.” Imediatamente, ele é fulminado por um raio que sai da arma alienígena.

O filme é “Marte Ataca”, uma sátira de películas ao estilo de “A Guerra dos Mundos”, mas a perspicácia dessa cena talvez seja a mais aguçada que já vi no cinema de entretenimento ao colocar a observação de que advogados podem transformar seus clientes nos donos do mundo. Os fatos que observamos hoje mostram que a ideia não é caricata. Muito pelo contrário, é a pura realidade.

O movimento Ocupe Wall Street, por exemplo, questiona o fato de o sistema financeiro estar estruturado para favorecer poucos em detrimento de muitos. Nos EUA, eles reclamam que os bancos colocaram artifícios nos contratos imobiliários que levaram a população a dever tanto que praticamente restou-lhe apenas a roupa do corpo.Aqui, quem não foi surpreendido por taxas de cartão de crédito ou de cheque especial? E ao questionar, descobre-se que essas taxas estavam previstas nas entrelinhas dos contratos. Ou, se não estavam, quem tem tempo e dinheiro para recorrer à Justiça contra isso. O pior é que quase sempre a administradora ou o banco reajustam, unilateralmente, o valor de taxas e multas e fazem os clientes pensarem que eles têm a obrigação de pagar o que essas empresas pedem.

Multinacionais de vários outros setores também recorrem a advogados para dominar o mundo. Primeiro com lobby para a adoção de normas de licenciamento a seu favor em todo o globo. Depois, para cobrar a aplicação dessas normas. Assim, empresas que registram patentes de transgênicos, por exemplo, vão cobrar de agricultores simplórios dízimo através dos tribunais. Alegam que têm direito a parte da produção que foi obtida a partir de suas sementes. Poderá chegar o dia em que gravadoras poderão cobrar pelos direitos de reprodução de músicas tocadas em festas particulares!

O grande porém acerca do domínio do mundo sem armas por parte de grandes corporações, entretanto, é ainda mais aterrorizante (sim, são empresas terroristas!). Elas tentam submeter governos a seus propósitos. Em várias crises recentes, inclusive no Brasil, vemos que os Tesouros nacionais transferem recursos a bancos sob o argumento de que não se pode deixar o sistema financeiro quebrar, o que levaria o país à falência. Esses recursos são “emprestados” sem garantias a juros de pai para filho. No Brasil, isso ganho o nome de Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional).

Queria deixar bem claro que não tenha nada contra advogados que trabalhem em prol da Justiça, mas sim contra aqueles que buscam dominar o mundo e torná-lo mais injusto.

Fora PM!

Há alguns dias, encontrei no metrô estudantes da USP que estavam a caminho de uma manifestação. Ostentavam adesivos onde estava escrito “Fora PM!” e estampado o desenho de uma placa de trânsito com a tarja de proibido sobre uma cochinha. Perguntei o por quê do salgado no adesivo e (vivendo e aprendendo) me informaram que os PM hoje são conhecidos por “cochinhas”.

Na conversa, lembrei meus tempos de USP, já longínquos. Entrei na universidade em plena ditadura militar e a presença de policiais a paisana no campus era constante. Eles, inclusive, costumavam se infiltrar nas aulas para saber o que era dito – em uma época em que a simples suspeita de ideias discordantes com as deles poderia ser fatal. Aos poucos, os estudantes foram ganhando as ruas e conseguiram transformar tempos sombrios de ditadura em uma democracia razoavelmente sólida, como a que temos hoje.

É claro que nem todos os estudantes foram às ruas, mas principalmente os de ciências humanas, que são os que agora se mobilizam. Os que estavam na área de exatas eram chamados de “alienados”, na época, por se furtarem a viver os anseios políticos que nos animavam. Isso é o que está acontecendo agora e não é gratuito. É sabido que os jovens escolhem cursos universitários de acordo com seu perfil. Assim, jovens idealistas acham engenharia uma coisa muito chata; os que querem mandar nos outros e ganhar dinheiro são os que buscam cursos de administração ou engenharia… O fato é que sempre foi a Ciências Humanas da USP que liderou as grandes mobilizações estudantis do País.

A questão atual é escamoteada como uma questão de segurança. Creio que muita gente não sabe, mas o campus da USP é também chamado de cidade universitária. O nome não é uma mera alegoria: a extensão da área é digna de uma verdadeira cidade. Cada escola tem seu próprio prédio, quando não mais de um. A escola politécnica, por exemplo, que é a faculdade de engenharia, tem um prédio para os dois primeiros anos e vários outros mais, um para cada especialidade (elétrica, minas, naval etc.). O campus conta ainda com uma área esportiva, uma área residencial, prefeitura própria (sim, tem uma prefeitura própria, com sua própria segurança), um hospital universitário, hospital veterinário, alguns institutos de pesquisa… Tudo isso em meio a amplas avenidas arborizadas. Há duas linhas circulares de ônibus que transportam pessoas (estudantes, funcionários, professsores ou apenas usuários dos inúmeros serviços prestados pela universidade, como atendimento veterinário, psicológico, bibliotecas, museus, refeitórios…) entre os vários prédios.

Nos anos 70, quando lá estudei, o campus ficava praticamente na periferia, mas a cidade foi crescendo e vários bairros (e favelas também) foram erguidos em seu entorno. Previsivelmente, a questão da segurança começou a preocupar, mas isso aconteceu em todo o País. Nos anos 70, uma pesquisa indicou que os cidadãos brasileiros tinham mais medo da polícia do que dos bandidos. Hoje, acredito que ocorra o inverso, mas isso acontece por uma série de motivos. A violência alcançou um nível absurdo na sociedade brasileira e foram impostos limites (ainda tênues, é verdade) à atuação da polícia militar, sempre conhecida por sua truculência.

O campus sempre contou com uma segurança própria, provavelmente defasada com o tempo. Um incidente infeliz (o assassinato de um estudante em uma tentativa de assalto) foi o pretexto para levar a PM para o interior do campus. Mas, em vez de cuidar da segurança dos usuários do local, a PM estava agindo como bedel de escola, querendo impor disciplina aos estudantes. E esse é o grande problema. Lembra os policiais que nos anos 70 frequentavam aulas para espionar a comunidade universitária.

Assassinos econômicos

Por acaso, tomei conhecimento de um vídeo que todos deveriam assistir. Como é muito extenso para colocar em meu blog, segue o link:  http://twixar.com/6ZJ7NTaSvAf6hB . Ele é autoexplicativo e eu acrescentaria apenas duas observações.

A primeira é que o depoimento no vídeo explica a situação que gerou o movimento Occupy Wall Street e uma série de coisas que vivemos atualmente.

A segunda é que, embora alguns dos fatos narrados sejam de difícil comprovação (como a questão do assassinato de chefes de governo por agentes americanos),  isso não invalida as informações sobre o esquema de domínio da economia mundial utilizados por grandes corporações há décadas.

O outro lado da notícia

Hoje conversei por telefone com uma fonte de longa data, um sindicalista engajado em várias bandeiras na luta dos trabalhadores. Trocamos figurinhas, como se diz no jargão jornalístico. Minha fonte falava do quanto é difícil emplacar pautas que dizem respeito aos interesses dos trabalhadores na grande imprensa.

Lembrei de uma colocação dele ao ler os comentários dos leitores do Luiz Carlos Azenha em sua excelente entrevista a respeito do sistema de duas portas em hospitais públicos de São Paulo (http://www.viomundo.com.br/denuncias/arthur-chioro-planos-privados-de-saude-vao-economizar-e-todos-os-paulistas-pagarao-a-conta.html). Um leitor pergunta, por exemplo, onde estão a OAB e o CRM-SP, que não metem a boca no trombone.

Minha fonte lembra um caso recente, de uma manifestação na Paulista a favor da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e do fim do fator previdenciário, que puxa para baixo o cálculo dos benefícios da aposentadoria. Em suma, um protesto por bandeiras que dizem respeito a todos os trabalhadores. O que os jornais, rádios e sites noticiaram? Que eles estavam atrapalhando o trânsito! Nem se deram ao trabalho de apurar quais eram as reivindicações.

O fogo da revolta

              Muitos anos atrás (talvez décadas), conheci em casa de amigos um pediatra que contava como tinha sido o seu plantão durante o Natal. Chegou uma criança pequena com febre alta e vômitos. O médico pediu exames e não havia funcionários para faze-los, nem equipamentos ou suprimentos adequados para o atendimento. É claro que ele contou isso com muitos mais detalhes e, ao final, ainda lembrou que, para coroar a noite, a ceia natalina veio com o peru queimado e o arroz azedo. Colocou isso tudo em um relatório. Sabem o resultado? A direção do hospital disse que as queixas do médico se resumiam à ceia de Natal com arroz azedo.

Por que retomo uma história tão antiga? Para lembrar que a mania de desqualificar qualquer manifestação política que vai contra o status quo não é novidade. As colocações do médico eram políticas uma vez que diziam respeito a seu trabalho e à coletividade, e não uma queixa individual de uma ceia azeda. A forma de desqualifica-lo é que foi amarga: revelou um desprezo quase absoluto por suas colocações, como se fossem divagações de uma mente inquieta e solitária. É o mesmo que acontece frequentemente com manifestações politizadas e nesse momento ocorre com as revoltas de jovens na Inglaterra, que muitos insistem em dizer que são apenas badernas que passaram dos limites.

Pergunto-me como é possível que uma onda de violência se alastre de uma forma tão abrangente e rápida pode não ser uma questão coletiva? Quer dizer que centenas de baderneiros, por mera coincidência, resolveram agir individualmente ao mesmo tempo por puro acaso?

A questão é outra: como uma sociedade como a britânica pode negar a seus jovens perspectivas de vida? Esses jovens tiveram sua infância na época dos governos conservadores iniciada por Margareth Thatcher. Cresceram com a ideia de que a ousadia de empreender lhes valeria riqueza e meios para consumir os objetos de seus desejos, enquanto uma série de programas sociais eram simplesmente exterminados. Depois, vieram os governos trabalhistas com Tony Blair, que mentiu descaradamente dizendo que o Iraque teria armas de destruição em massa para condenar punhados de jovens à morte em uma guerra insana.

A crise financeira que explodiu no chamado Primeiro Mundo há três anos detonou o governo trabalhista, mas o conservador David Cameron não trouxe novas esperanças aos jovens. Em vez de investir na geração de empregos, cortou gastos e reduziu serviços públicos, embora tenha destinado verba para bancos privados a pretexto de manter a estabilidade da economia.

Parece que os jovens não concordam com os rumos para os quais os políticos conservadores querem conduzir a sociedade britânica. O incêndio que se propaga pelas cidades inglesas é alimentado pelo fogo da revolta. Os tumultos podem até ser contidos pela polícia; mas as demandas dos jovens, não.

 

O papel dos bancos

Dizem que a história se repete duas vezes: a primeira como tragédia e a segunda já é uma avacalhação: farsa, segundo alguns; ópera bufa, em outras versões; ou simplesmente como uma piada de mau gosto. A atual crise das finanças globais parece ser tudo isso (farsa, ópera bufa e piada de mau gosto), além de outras coisas mais.

Para quem não se lembra, duas ou três décadas atrás vivíamos a crise da dívida do Terceiro Mundo. A economia brasileira ia mal das pernas, a dívida externa era impagável e o futuro parecia negro (talvez por isso que o Brasil elegeu um presidente collorido, mas a situação continou preta). Hoje, são os países que eram ricos os que não conseguem pagar suas dívidas. Mas a situação levanta uma questão que ainda não foi devidamente abordada: qual o papel dos bancos?

A rigor, os bancos seriam (ou deveriam ser) um serviço capaz de promover o desenvolvimento das nações. Mas eles foram se sofisticando, criaram novos serviços e começaram a gerir fortunas.

Nos anos 70, seus cofres foram inundados por petrodólares (para quem não sabe, quando o preço do petróleo começou a subir, os países árabes começaram a usar bancos ocidentais para estocar os dólares que começaram a aparecer em profusão em suas contas) e eles não sabiam o que fazer com essa grana. Resolveram então emprestar para os países do Terceiro Mundo, que eram carentes de dinheiro. Chegava-se ao cúmulo de resolver em uma única tarde um crédito de algumas dezenas de milhões de dólares. Ou seja, os banqueiros foram irresponsáveis.

Veio a crise da dívida e milhares de miseráveis no Terceiro Mundo foram penalizados pela incompetência dos banqueiros. Discutia-se na época se os acionistas pagariam pela inadimplência dos governos de alguns países e, claro, tentava-se atribuir a culpa a esses governantes. Ao perceberem que não teriam como receber tudo o que pretendiam, os bancos abriram mão de algumas exigências absurdas e a tal crise se resolveu.

Nos anos 90, houve um período de bonança econômica e os bancos, novamente, não sabiam o que fazer com o dinheiro guardado em seus cofres. Deram o mesmo golpe, oferecendo dinheiro barato e depois elevando juros ao ponto de as dívidas ficarem impagáveis. Só que desta vez, emprestaram aos ricos (que agora são ex-ricos).

E, mais uma vez, milhões de pessoas ficam sem emprego e enfrentam dificuldades para garantir os dividendos dos acionistas, que nunca se deram ao trabalho de fiscalizar o que os gestores de suas empresas faziam (apesar das babaquices que se veem nas novelas de TV, dinheiro impõe muita responsabilidade; pelo menos é assim na vida real). A grande farsa que se apresenta é que em vez de discutir o papel dos bancos, discute-se cortes em orçamentos e em empresas para pagar dívidas impagáveis. Por que ninguém questiona o verdadeiro papel dos bancos, que é o de ser um agente promotor do desenvolvimento?

Nuvem de tags