o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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Telefone sem fio

Na minha infância, já remota, havia uma brincadeira muito popular chamada telefone sem fio (os que vemos hoje ainda não existiam nem na imaginação). As pessoas ficavam dispostas em algum tipo de fila (podia ser ao redor de uma mesa) e a primeira cochichava uma frase no ouvido da segunda, que a repassava à seguinte, sempre aos cochichos, até chegar à ultima. Inevitavelmente, o resultado do final da fila era muito diferente da frase dita inicialmente. Algo como “gosto de macarrão” virava “sabor de macaco” ou coisa pior…

Acredito que os reporteres que hoje trabalham na grande imprensa não tiveram a oportunidade de brincar com esse jogo, pois praticamente só os mais novos é que aguentam as agruras da reportagem e eles tiveram brinquedos mais interessantes em sua infância, como video games e assemelhados. Mas parece que estão brincando de telefone sem fio.

Ontem, vi uma matéria que dizia que um reporter da Reuter (sem citar nome) teve acesso a trechos do conteúdo do depoimento de Marcelo Odebrecht e citava o que seriam alguns trechos. Hoje, já vários jornais “informam” (?) que ele disse que Dilma sabia dos valores que a empreteira deu e por aí afora… Não há qualquer menção ao fato de que o depoimento é sigiloso. Portanto, tudo isso é uma imensa brincadeira de telefone sem fio.

Essa é a imprensa que temos nesse país. É brincadeira?

 

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Falta Educação!

Hoje fui surpreendida pelo Estadão, que em seu site dava como manchete: “Greve dos professores da rede pública atinge DF e mais 11 Estados – Categoria quer cumprimento do piso. Não há balanço sobre a quantidade de decentes (sic) parados.” Conclusão: o vetusto jornal não é mais o mesmo.

Antigamente, o Estadão era um jornal respeitado por conta de várias coisas: nunca escondia sua posição conservadora, tinha uma correção linguística acima de qualquer suspeita, dava informações corretas (mesmo com sua posição conservadora)… Ao que tudo indica, o adjetivo com o qual o jornal é conhecido há tempos, vetusto, deixou de significar “Cuja antiguidade deve ser respeitada” para se tornar “Desgastado ou danificado pela passagem do tempo” – ambas definições para a palavra que podem ser encontradas no dicionário digital Aulete.

Trabalhei em jornais, inclusive no Estadão e sei que na correria do dia a dia erros acontecem. Mas confundir docente com decente é um desses erros imperdoáveis. Nos faz pensar que os redatores, quando discentes (alunos), não tiveram professores decentes que lhes ensinassem algumas noções mínimas de português que, seria de se esperar, qualquer jornalista deveria dominar.

Aliás, a notícia dizia respeito a um fato que permanece ignorado por muitos. Há cerca de três anos, foi aprovada uma lei federal que estabelece um piso para o salário dos professores. O objetivo é recuperar a educação do País e atrair talentos para a área, já que os bons professores abandonaram as salas de aula em buca de salários decentes. Mas quem define os orçamentos regionais de educação são os Estados e Municípios, que alegam ser impossível pagar um piso de cerca de R$ 1 mil para professores primários com o antigo curso normal ou magistério (um curso técnico de segundo grau que já não existe). A questão foi ao Supremo, que decidiu que a lei vale, e os professores pedem a sua aplicação.

Conclusão: o Estadão de hoje mostra um retrato do resultado de décadas de descaso com a educação brasileira, em que seus profissionais não sabem que um professor é docente, um aluno é discente e ambos deveriam ter um mínimo de decência. É a falta que a educação de qualidade faz no País.

 

PS: agora a noite, a notícia continua com os decentes, mas a greve está em 22 Estados, segundo o vetusto jornal.

O outro lado da notícia

Hoje conversei por telefone com uma fonte de longa data, um sindicalista engajado em várias bandeiras na luta dos trabalhadores. Trocamos figurinhas, como se diz no jargão jornalístico. Minha fonte falava do quanto é difícil emplacar pautas que dizem respeito aos interesses dos trabalhadores na grande imprensa.

Lembrei de uma colocação dele ao ler os comentários dos leitores do Luiz Carlos Azenha em sua excelente entrevista a respeito do sistema de duas portas em hospitais públicos de São Paulo (http://www.viomundo.com.br/denuncias/arthur-chioro-planos-privados-de-saude-vao-economizar-e-todos-os-paulistas-pagarao-a-conta.html). Um leitor pergunta, por exemplo, onde estão a OAB e o CRM-SP, que não metem a boca no trombone.

Minha fonte lembra um caso recente, de uma manifestação na Paulista a favor da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e do fim do fator previdenciário, que puxa para baixo o cálculo dos benefícios da aposentadoria. Em suma, um protesto por bandeiras que dizem respeito a todos os trabalhadores. O que os jornais, rádios e sites noticiaram? Que eles estavam atrapalhando o trânsito! Nem se deram ao trabalho de apurar quais eram as reivindicações.

Sem noção!

“Vinte opções de franquias que custam menos que um carro popular” é o título de uma nota publicada com destaque no portal do Estadão neste sábado. Mas o mais interessante é os comentários dos leitores: “Grande bosta! Reportagenzinha.”, diz um deles; “Pessoal, vamos pegar leve. Ta na cara que trata-se de um PRESS RELEASE esquentado ou matéria paga. Nos tempos do Dr. Julio, provavelmente isto não passaria”, diz outro. Os demais comentários vão na mesma linha.

Antigamente, quando economia era uma editoria importante (com leitores ávidos de informações sobre como sobreviver ao caos da hiperinflação), criou-se um tipo de jornalismo muito sofisticado. Tratava-se do jornalismo de serviços em economia. Naquela época, colunas do tipo “seu dinheiro”, que diziam que estava na hora de investir na bolsa ou na poupança, eram mais lidas que o horóscopo. Foi aí que muitos profissionais começaram a se acharem deuses que ditavam aos homens as regras de suas vidas. E os homens acreditaram (tirando algumas poucas exceções).

Depois, veio o piloto automático. Em vez de escrever algo original, colocavam os computadores para escreverem sozinhos as colunas, com as mesmas assinaturas (dos profissionais) de antes. Até hoje, esses computares continuam a produzir o mesmo tipo de texto – do tipo, a maré está mais para bolsa, poupança, fundo de investimento ou peixe. Deve ser alguma variante de autismo, mas de caráter profissional. A novidade é que os leitores agora se manifestam na internet, e clamam por um jornalismo de melhor qualidade.

Aliás, muito insólito o anúncio de uma declaração de princípios editoriais da Rede Globo, feito no Jornal Nacional. Isenção, correção e agilidade são os pilares dessa declaração, que pelo seu próprio teor demonstra nada mais ser do que um jogo de palavras. Talvez estejam desconfiando que perderam credibilidade. Mas a hipótese mais plausível é que apenas estejam sem noção, como é de praxe!

Os donos da opinião pública

O caso dos grampos promovidos pelos jornais de Rupert Murdoch está dando o que falar no mundo todo. Mas, como de hábito, não se discute o ponto mais essencial: qual a função dos jornais em uma sociedade como a nossa? Quais os seus limites? Que rumos deve tomar o trabalho jornalístico?

Há década, ouvimos que a mídia é o “Quarto Poder” e jornalistas adoram bater nessa tecla para exigir regalias. Acreditam que são os “donos da opinião pública” (sem ouvir ninguém, é claro) e isso justificaria qualquer meio para obter informações, independentemente da relevância delas. Que importância tem para mim, por exemplo, o fato de uma celebridade ter se separado ou se casado?

Muitos jornalistas acham que podem fazer de tudo, inclusive derrubar ministros. Lembro de uma vez em que os editores executivos de um jornal onde trabalhei discutiam para chegar à conclusão de que o presidente teria motivos para substituir um ministro já que a economia não andava bem das pernas, como era de praxe naquela época. Resultado: a manchete dizia que o ministro estava frito. Só que esse ministro continuou lá por um bom tempo.

Aliás, os coleguinhas (que é como os jornalistas se chamam entre si) frequentemente não se dão conta de que sua atuação pode mudar a realidade. Soube de um episódio em que um jornalista obteve de uma fonte a informação, correta, de que detrminada empresa iria lançar ações. Ligou para o responsável, que explicou que as normas de mercado o proibiam de comentar tal assunto antes do anúncio oficial do lançamento. O jornalista publicou a informação e a oferta de ações teve de ser suspensa, tal o alvoroço que a notícia provocou no mercado.

Os exemplos são inúmeros e talvez desse até para escrever um livro com eles. Mas o interessante é que poucos lembram que o jornalismo é um serviço de utilidade pública.e deveria ser exercido de acordo com esse princípio. É importante para o cidadão saber o que seus governantes fazem, de bom ou de mau. Mas alguns acham que só é notícia o que se faz de mau. O cidadão também precisa de uma série de outras informações para exercer sua cidadania plenamente e participar do mundo em que vive, mas essas estão relegadas a segundo plano (quando não ao limbo) na mídia atual. O caso do império Murdoch é consequência disso. Perdeu-se o rumo do jornalismo e o noticiário foi para o esgoto.

Por trás das câmaras

Normalmente, as pessoas desconhecem o que acontece por trás das câmeras de TV. Em 2009, a deficiente visual Andreia Aparecida da Silva Queiróz tomou um taxi. Após uma breve conversa, o motorista se idenficou como Luciano Huck e a levou a seu programa, em setembro daquele ano. Diante das câmaras, “deu” a ela um cão-guia. Mas ela não o recebeu até hoje.

Andreia foi informada de que havia necessidade de concluir o treinamento do cão-guia, o que levaria um ano. Cansada de aguardar, tentou entrar em contato com o produção do programa e com a entidade que lhe teria doado o animal, mas sem sucesso. Apenas no início de março de 2011 (18 meses após a “doação”) é que um dos instrutores do cão a procurou para dizer que o animal que estava destinado a ela havia morrido e que eles lhe forneceriam outro dentro de seis meses.

Hoje, Andreia não tem muita esperança de receber o cão dessa entidade, a Associação Cão-Guia do Brasil (ACGB). A fila para receber um animal em outras entidades é de no mínimo dois anos, pois é muito difícil treinar um cão-guia. Mas diante das câmaras, Luciano Huck deu um cão a Andreia.

Hoje, Huck aparece como bom mocinho em todo canto. As pessoas só conhecem a sua imagem diante das câmaras. É até bem possível que ele não saiba que Andreia está sem cão-guia até hoje, pois deve ter delegado essa tarefa à sua equipe de produção. Mas a responsabilidade é dele, e do programa que leva o seu nome.

A verdade é que é muito frequente esse tipo de coisa: a realidade por trás das câmaras não espelha o que acontece por trás delas.

Uma feira de vaidades…

               Hoje, leio que o senador Roberto Requião tomou o gravador de um reporter e só o devolveu horas depois, com a gravação de sua entrevista apagada. No twitter, o senador declarou: “Na minha pág, a entrevista que eu não quis que a Band divulgasse. É minha, divulgo eu, na íntegra e sem edição. http://bit.ly/fzIayP” Lógico que fui verificar o que houve. Nada bombástico: apenas uma pergunta incômoda, que irritou o senador, detonou todo esse quiprocó!

Faz parte do ofício do jornalista fazer perguntas incômodas. Pelo menos do verdadeiro jornalista. Esse sim, incomoda muita gente. Mas hoje o que mais há são profissionais de relações públicas travestidos de jornalistas, que contam os fatos apenas pela ótica do entrevistado, e muitas fontes (algumas até de importância absolutamente insignificante) acham que têm o direito de ditar o que o jornalista deve escrever. Os jornais acham que conseguirão mais receita publicitária dando a versão de grandes empresas ou empresários e o resultado é que o verdadeiro jornalismo é coisa rara por aqui.

Costumo dizer que não há profissão que trabalhe mais com a vaidade do que o jornalismo. Salões de beleza lidam com a vaidade do que é paupável e visível diante do espelho. O jornalismo, ao contrário, lida com uma vaidade invisível e muito mais perversa. É a fonte querendo passar uma imagem impecável, que normalmente é fake. É o coleguinha (termo com que os jornalistas designam seus pares) enciumado porque outro conseguiu dar o furo que ele gostaria de dar. É o foquinha se achando o grande jornalista a ponto de achar que seus textos devem ser enquadrados e exibidos na parede. É o chefe de reportagem perseguindo algum subordinado apenas porque quer provar que é o mais poderoso do pedaço…

Mas o problema é que parece estar virando moda essa mania de fonte achar que pode determinar o que o jornalista pode perguntar, o que ele deve escrever… Alguns chegam a querer impor condições para dar uma entrevista (do tipo: só dá entrevista se puder ver a matéria antes de ser veiculada ou se puder determinar os assuntos da pauta). No caso do senador, ele é um homem público e deve satisfações à sociedade, jamais poderia se recusar a falar de assuntos espinhosos.

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