o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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É preciso dar nome aos mortos

              A barbárie do Pinheirinho ainda terá muitos desdobramentos. Alguns levarão anos, como a estimativa dos danos aos moradores expulsos de suas casas. Enquanto Geraldo Alckmin anuncia que os moradores receberão seis meses de aluguel social como se isso fosse capaz de abafar suas dores, os prejuízos deles ficarão por toda a vida.

Além de carregarem até o final de seus dias lembranças sufocantes, a expulsão dos moradores de suas casas está colocando em risco suas próprias vidas. Muitos não têm mais endereço e, assim, ficam sem condições sequer de se candidatarem a um emprego. Alguns viviam com pequenos bicos e agora não tem como se desdobrar para conseguir sustento. As situações precárias a que estão sendo submetidos prejudica sua saúde. Talvez alguns morram com crises de insuficiência respiratória… Quantificar esses danos é uma tarefa que vai durar alguns anos, talvez décadas.

Mas há um ponto urgente, que parece estar se perdendo no caos e espanto que essa situação provoca. Inúmeras testemunhas dizem ter visto pessoas, inclusive pelo menos uma criança, sendo mortas durante a desocupação. Váris depoimentos denunciam insistentemente que a PM de Alckmin deu sumiço nos corpos – algo que era comum na época da ditadura militar e que pensavamos que fazia parte do passado. Só não é compreensível por que ainda não se deu nome aos mortos, a melhor maneira de deixar sua memória viva e denunciar as atrocidades do governo paulista.

Não é possível que ninguém da comunidade do Pinheirinho saiba quem foram as vítimas. E também não é possível se denunciar o que houve sem nomes, casos concretos. Sem os nomes, esses mortos viram fantasmas que caem na vala comum do esquecimento.

Assassinos econômicos

Por acaso, tomei conhecimento de um vídeo que todos deveriam assistir. Como é muito extenso para colocar em meu blog, segue o link:  http://twixar.com/6ZJ7NTaSvAf6hB . Ele é autoexplicativo e eu acrescentaria apenas duas observações.

A primeira é que o depoimento no vídeo explica a situação que gerou o movimento Occupy Wall Street e uma série de coisas que vivemos atualmente.

A segunda é que, embora alguns dos fatos narrados sejam de difícil comprovação (como a questão do assassinato de chefes de governo por agentes americanos),  isso não invalida as informações sobre o esquema de domínio da economia mundial utilizados por grandes corporações há décadas.

A porta dos fundos

                Antigamente, praticamente todo prédio em São Paulo tinha porta e elevador de serviço, pois a criadagem não deveria circular pelos locais onde poderia encontrar os patrões. Creio que isso terminou faz tempo, quando comecei a ver nos elevadores cartazes dizendo que de acordo com determinada lei (da qual não me lembro o número), é proibida discriminação de qualquer tipo. Mas parece que o governo paulista ainda não se deu conta disso.

Há alguns dias, fiquei sabendo que há um projeto de se implantar um sistema de duas portas no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo. Uma das portas seria dedicada a pacientes de planos de saúde, que devem representar 12% do total de atendimentos. A outra, fica para o resto (também chamado de ralé). Há vários problemas importantes aí. O principal é a apropriação privada de recursos públicos, pois neste caso parte das verbas do Estado (ou seja, de todo o povo) está sendo reservada para atender uma parcela da população mais privilegiada.

Mas isso não acontece só no HC. Há alguns anos, ao fazer uma matéria sobre um determinado setor, a respectiva entidade de classe me apresentou um estudo feito por um afamado instituto de pesquisa paulista. Tentei entrar em contato com a pesquisadora responsável para maiores esclarecimentos. A resposta que recebi foi estarrecedora: a pesquisa era da entidade de classe e ela não teria nada a falar sobre o assunto, só a entidade. Em resumo: o Estado mantém um instituto de pesquisas e paga pesquisadores com verbas públicas, mas esse instituto atua como uma consultoria qualquer e vende seu trabalho a uma entidade privada.

Aliás, esse esquema de venda de trabalho à iniciativa privada vem avançando muito nas universidades estaduais de São Paulo. É a maneira que o governo encontrou de se eximir da responsabilidade pelo financiamento das universidades públicas, e de docentes acharem uma forma de complementar sua renda. Os problemas que isso gera são inúmeros: docentes de certas áreas são mais agraciados do que os de outras com as verbas de empresas, o orçamento privado direciona a pesquisa e muitas vezes também pode distorcer seus resultados, o Estado deixa de investir no ensino e pesquisa… É como se houvesse uma porta nas instituições de pesquisa exclusiva para quem paga e uma segunda, para todos, que parece ser a porta dos fundos.

Que regras devem reger a atividade de lobby no Brasil?

                Sempre ouvi celebridades reclamando de que o brasileiro é invejoso e, por isso, vive falando mal de quem vence por seus próprios méritos. É o que acontece no momento com a questão do enriquecimento de Antonio Palocci. Nenhuma menção a outros que enricam enquanto ocupam cargos públicos (e são muitos). Não há nada de errado em abrir uma empresa de serviços e enriquecer com o seu trabalho. As fofocas sobre Palocci (não são matérias jornalísticas os textos que estão saindo nos jornais) são absolutamente maldosas. Mas o episódio deveria ser aproveitado para um debate muito oportuno: que regras são necessárias ao lobby no Brasil?

O lobby é uma atividade presente em praticamente todos os países do mundo. Mas é nos Estados Unidos que ela começou a ser realizada às claras, no hall de entrada (lobby) do Congresso, e não em becos escuros ou cafés de reputação duvidosa. Os lobistas abordam os congressistas para conversar sobre assuntos que dizem respeito aos interesses de seus clientes – pode ser um projeto de lei, uma proposta orçamentária que envolva compras do governo ou mesmo sanções comerciais contra outros países… Assim, os lobistas de Washington afetam também a nossa vida, quando convencem os congressistas a tomar medidas para proteger os produtores locais de suco de laranja, por exemplo.

Nos EUA, considera-se que a prática de lobby é essencial para proteger a democracia uma vez que ela leva aos congressistas as demandas de diferentes setores da sociedade. Há um porém, que essa afirmação não dá conta: os interesses do grande capital conseguem assim maior visibilidade do que as demandas dos mais pobres. Por conta disso, aqui no Brasil lobby enquanto atividade é praticamente um palavrão.

Mas o fato é que lobistas sempre existiram e vão continuar existindo.Há muitos anos, fiz uma série de reportagens em Brasília e, naquela época, apenas uma lobista falava abertamente sobre o assunto. Aliás, ela achava que se devia regulamentar a profissão e instituir regras. Creio que é uma discussão que precisamos levar com seriedade.

A polícia de São Paulo, nua e crua

Hoje encontrei na web um dos vídeos mais chocantes que já vi em minha vida: o da policial sendo desnudada por colegas homens a pretexto da necessidade de uma revista. Várias coisas chocam nesse episódio: o desrespeito ao direito de ela ser revistada por mulheres, como ela mesma insistiu; o fato de ela ficar exposta a intimidação constante por mais de dez minutos antes que eles a agarrassem e tirassem sua roupa a força; a possibilidade (grande) de o flagrante ter sido forjado, uma vez que o exato momento em que o tal dinheiro teria aparecido ter sido encoberto por alguém na frente da câmara… A grande conclusão é que a polícia paulista é tão (ou até mais) criminosa quanto os bandidos que deveria combater.

Quanto ao fato em si, há duas possibilidades: ou a escrivã realmente recebeu propina ou forjaram um flagrante (coisa que frequentemente a polícia paulista é acusada de fazer). Admitindo como verdadeira a primeira hipótese, nada justifica que ela não fosse revistada por mulheres, inclusive até porque havia mulheres no recinto – e não se justifica que ela fosse filmada nessa condição humilhante. A segunda hipótese ganha corpo com a recusa do delegado em fazer a revista por mulheres, uma vez que uma farsa poderia ter sido combinada previamente com seus homens de confiança. Todos sabem que qualquer coisa banal pode ser motivo para uma pessoa sem caráter querer prejudicar outra (o delegado pode ter sido rejeitado pela escrivã em uma cantada, pode ser que ele apenas quis “mostrar serviço”, pode ser uma forma de desviar a atenção de outras coisas…).

Mas ainda há várias perguntas que não querem calar nesse episódio: Será que os caras filmaram o episódio porque se achavam tão acima da lei? Por que isso não foi veiculado antes? Por que a escrivã foi demitida, antes de sentença transitada em julgado, e os seus algozes nada sofreram? Por que a corregedoria não tomou providências (ao que me parece, há um corregedor no recinto da filmagem)?

Infelizmente, os fatos chocantes não se encerram no vídeo. Nos sites onde o encontrei (no youtube e no do jornalismo da Rede Bandeirantes), li vários comentários depreciativos à pobre escrivã, mesmo quando todos sabem que a polícia paulista não é confiável para proteger os cidadãos (só para bater em professores ou em estudantes). Coisas do tipo: “vagabunda, tem de pagar pelo que fez” ou ainda piores. Duvido que houvesse comentários assim se fosse um homem.

De qualquer modo, esse vídeo é um retrato do (des)governo tucano de São Paulo.

Rumo ao futuro

Reencontrei esses dias o economista Marcio Pochmann em um evento em São Paulo. Considero-o uma das mentes mais brilhantes desse país. Justamente por sua capacidade, ele, um simples técnico, tem sido chamado a ocupar cargos políticos. Primeiro foi a Secretaria do Trabalho do Município de São Paulo, na gestão Marta, de onde saiu aplaudido por seu trabalho. Agora, está no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão subordinado à Presidência da República.

Antes de Marcio Pochmann, o Ipea atuava como uma espécie de sinalizador para o mercado financeiro. As coletivas de lançamento de seu boletim de mercados eram frequentadas pelos jornalistas da área de finanças, que também tinham como ídolo máximo um economistas que parecia ser a grande estrela da instituição: Fabio Giambiaggi. Este mais parecia um economista dos banqueiros pelo teor de suas declarações e era o grande guru dos repórteres de finanças. O Ipea naquela época era, então, uma fonte fácil para certos jornalistas e um órgão público que trabalhava para interesses privados.

Foto: Agência Brasil

Quando Pochmann assumiu a presidência do Ipea, empreendeu uma mudança no foco da instituição. Em vez de concentrar seu trabalho em boletins voltados a orientar o mercado financeiro, empreendeu-se um intenso trabalho de pesquisa em ciências humanas aplicadas com o objetivo de oferecer ferramentas para definir o futuro do País. Giambiaggi foi devolvido ao BNDES, de onde é funcionário.

Lembro muito bem das matérias que sairam na imprensa escrita quando o Ipea, na coletiva habitual que lançava o seu boletim de mercado, anunciou que não iria mais fazer isso. Os jornalistas habitués (que estavam acostumados a escrever apenas uma síntese das declarações do Giambiaggi) fizeram matérias forçando pontos de vista duvidosos, pois mais pareciam fofoquinhas de comadres – do tipo, os técnicos com quem eles estavam acostumados a conversar tinham sido proibidos de falar, esses técnicos estariam sendo perseguidos, o ambiente do Ipea estava ditatorial, o fulano ou o siclano deixou transparecer sua irritação na entrevista, a saída do Giambiaggi do Ipea foi devido a perseguição política contra ele etc. – como se isso fosse informação relevante.

Com o tempo, o trabalho do Ipea em seu novo rumo foi aparecendo e gradativamente está conquistando seu merecido reconhecimento. Agora começamos a conhecer um pouco da realidade desse imenso País e o Ipea nos fornece ferramentas para planejar o futuro do Brasil. E um futuro para todo o povo, não apenas para banqueiros.

Com os burros nágua

Uma coisa que me intriga no alagamento de Atibaia é o fato de que ela ocorreu porque a Sabesp abriu as comportas. Não sou técnica, mas tenho a sensação de que algo está errado nessa história. Se a represa estava no seu limite, por que não foi feito o bombeamento das águas antes da chuva?

O que sei é que isso me lembra uma inundação ocorrida em 1991 ou 1992, em que levei cerca de 4 horas para chegar ao jornal onde trabalhava na época. Isso porque eu estava a pé e pude pegar o metrô para atravessar a marginal e chegar a Santana, de onde pude pegar uma van que a empresa enviou para que os funcionários pudessem chegar ao trabalho. Teve gente que ficou preso no trânsito por mais de 8 horas e não conseguiu chegar.

O que me lembro é que teve uma chuva de manhã e à tarde, quando o sol já brilhava, é que as águas do Pinheiros e do Tietê começaram a subir. Mistério? Não, apenas uma explicação simples: depois da chuva, a Sabesp abriu as comportas e as águas acabaram invandindo as ruas. Havia quem dissesse que era proposital para manchar a imagem da então prefeita Luiza Erundina, mas não sei se essa hipótese era correta.

São Paulo é cercada por uma rede que interliga vários sistemas de represas. Quando o volume de água em uma delas sobe a níveis críticos, há uma série de procedimentos para redistribuir a água entre outras represas e, se necessário, para outro sistema hídrico. Há décadas que ouvimos que na época das chuvas, o verão, as águas nos reservatórios sobem a níveis críticos. Por que não se constroem novos reservatórios ou se toma uma atitude para evitar isso? Parece que preferem o improviso do menino que conteve o buraco no dique com o dedo, segunda a velha lenda holandesa.

Para quem não conhece, a Holanda é um país que tem boa parte de suas terras abaixo do nível do mar e tem inúmeros diques, que começaram a ser construídos há mais de um milênio ao longo de sua costa, para evitar alagamentos. Peter, o jovem da lenda, um dia andava pelo campo quando percebeu que havia um buraco em um dique, que estava prestes a romper. Ele tapou o buraco com o dedo e ficou lá toda a noite, até que no dia seguinte alguém que passava pelo local trouxe socorro. Como sua atitude salvou os moradores da vila, ele é considerado um herói nacional.

Só que aqui em São Paulo, o menino é toda a população, que não tem como conter águas que são vertidas de seus reservatórios sem os devidos cuidados.

 

 

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