o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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Não se pode mais levar o Carnaval a sério!

              O espetáculo momesmo do roubo dos votos dos jurados do carnaval paulistano, bem diante das câmaras de TV e debaixo do nariz da polícia, só nos leva a uma conclusão: não se pode mais levar nem mesmo o carnaval a sério! Afinal, embora pouca gente saiba, carnaval é algo muito sério.

Há cerca de dez anos, um amigo, conhecido jornalista, comentava acerca de uma matéria que tinha feito, e que não conseguiu veicular. Ele defendia que se aplicasse as regras do carnaval à política no Brasil. Se uma escola de samba atrasa, perde pontos. Se as fantasias e adereços estão irregulares, idem. Com perda de pontos, escolas de samba perdem verbas e oportunidades. Enquanto isso, políticos vivem faltando às sessões, atrasam votações e fazem uma série de peraltices sem que nada aconteça… Pelo menos, até a semana passada era assim.

O carnaval tem muita seriedade também no tocante aos negócios. Além de promover a imagem do Brasil em todo o mundo, movimenta uma infinidade de ações de marketing, cria riquezas para redes de TV, movimenta o setor de turismo e aquece os negócios dos fabricantes de cerveja gelada… Só parece não trazer muito benefício monetário para o sambista que economiza o ano todo para brilhar na avenida com o luxo que qualquer pobre gosta (Joãozinho Trinta foi um gênio ao perceber que só intelectual gosta de miséria porque os pobres adoram é o luxo).

Mas agora, São Paulo mais uma vez inovou. Tucanos parecem gostar de privatização mesmo, tanto que privatizaram a PM e a Justiça, que serve a interesses privados. Não importa que o “dono” do Pinheirinho deva milhões ao Erário, coloca-se 2 mil PMs para defender o seu direito de propriedade. Mas não se coloca policiamento adequado para um dos mais importantes eventos do calendário de festas da cidade. E olha que todo ano tem briga e confusão durante o evento da apuração do carnaval paulistano.

Enfim, o carnaval paulistano agora parece brincadeira. Não dá mais para brincar nesse carnaval.

O berço do idioma português

No final dos anos 70, quando eu ainda passava por uma adolescência tardia, fui morar na fervilhante Londres de então. Lá, conheci gente do mundo todo, inclusive uma francesa, estudante de espanhol, que se tornou minha melhor amiga e com quem vim a dividir o aluguel. Conversavamos normalmente em inglês, mas gostávamos de falar em francês ou espanhol quando queríamos que ninguém mais entendesse o que conversavamos. Um dia, ao sair, deixei um bilhete para ela, em português. Quando voltei, ela estava maravilhada por ter compreendido o que estava escrito. “Agora sei que podemos conversar em quatro línguas e, assim, podemos nos entender melhor”, disse ela.

Florence (era esse o seu nome) estava certa. Com o tempo, percebemos que cada idioma tinha uma característica específica: o inglês prima pela objetividade; o francês, pela sonoridade; e as línguas ibéricas são mais adequadas à expressão de sentimentos. Ao contrário da ideia que tenta nos passar o mito da Torre de Babel, o importante não é falar em uma só língua em que ninguém se entende, mas abrir a mente para compreender os outros em sua totalidade, o que inclui o respeito aos demais idiomas e dialetos do mundo. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) adotou o 21 de fevereiro como o Dia Internacional dos Idiomas Maternos. Mas, infelizmente, a própria ONU reconhece que muitas línguas estão desaparecendo no mundo.

Hoje, por questões de trabalho, entrevistei um galego nacionalista. Aliás, minha primeira informação sobre a Galícia veio da minha amiga Florence (por onde andará ela?). Em compras no bairro, descobrimos que a dona da loja era da Galícia, local do qual eu nunca tinha ouvido falar. Florence me disse que era uma região que ficava na fronteira entre Portugal e Espanha e que falava um dialeto que era uma mistura das duas línguas. Mas só com essa entrevista é que vim a saber que a região é o berço do idioma português.

Meu entrevistado me informou que Portugal inicialmente era um condado galego e que se separou posteriormente da Galícia. Atualmente, o território galego é controlada pela Espanha (da mesma forma que o País Basco). Para sufocar o separatismo, o governo de Madri reprimiu o dialeto local, uma espécie de português arcaico, por vários meios. Em outras épocas, o galego foi simplesmente proibido e seus falantes eram perseguidos. Hoje, o castelhano é obrigatório em escolas, órgãos públicos e outros locais e único meio para obter algum tipo de progresso social. Com isso, o galego ganhou um sotaque espanholado e ficou relegado à sombra. Por isso, muitos galegos acreditam que a independência seria uma solução para que possam preservar sua identidade cultural.

Dr. Freud levado a sério

Quando eu era bem jovem, um dia estava na casa de uma amiga e acordamos de manhã com o pai dela, comunista, gritando o Louis Althusser havia matado a esposa, conforme revelava o jornal. Para quem não sabe, Althusser foi o “Papa dos marxistas” franceses nos anos 60 e 70. Entrou em depressão (como tantos outros intelectuais destacados da época) e acabou matando a esposa. Na época, eu cursava Ciências Sociais na USP e lembro do comentário – ferino, mas estremamente perspicaz – de uma colega: “É esse pessoal doido que a gente estuda aqui e leva a sério”.

Na época, combatíamos a ditadura e era importante marcar posição. E o que nos ajudava muito a marcar posição era se apegar a algum intelectual de respeito. Vários deles acabaram em suicídio, mas as pessoas continuavam a leva-los a sério. Mas é sobre um desses “intelectuais de respeito” que quero falar. O nome dele é Sigmund Freud.

Creio que todos sabem que Freud foi o “pai da psicanálise”. Várias de suas proposições são tomadas como verdade absoluta até hoje. Mas poucos sabem que ele mesmo se dizia que criou a psicanálise porque era um maníaco compulsivo e, com isso, buscava entender a si mesmo. Desde então, mais de um século se passou e o mundo começou a ver questões ligadas a comportamento sob uma nova ótica: a médica, que aparentava ter um critério “científico”.

Comportamento é algo muito complexo. Segue padrões culturais. Em toda sociedade, alguns padrões de comportamento são valorizados e outros, combatidos. O mesmo padrão de comportamento pode ser valorizado em determinado meio e combatido em outro contexto cultural. Mas a partir da visão do Dr. Freud, passou-se a ver todo comportamento divergente como patológico.

Essa visão por si só é questionável. Na minha geração, muitos adolescentes rebeldes foram internados em manicômios pelos pais e ficaram com sequelas pelo resto da vida. Mas não é só isso. Certa vez, ouvi o relato de um médico de uma empresa em que a pressão sobre os funcionários era grande e havia uma onda de “surtos”. Ele falava em “psicose reativa” ao ambiente. Eu coloquei: “será que não é uma questão política, uma forma de protestar contra a pressão e condições desumanas no trabalho?”

Por isso, sempre desconfio de rótulos psiquiáricos, muitos dos quais servem apenas de justificativas para não se tentar superar situações que são incômodas. Mas o problema hoje é a medicalização da vida. Se a pessoa está irritada, usa-se uma medicação. Deixa-se de viver.

O grave é que isso está atingindo crianças cada vez mais jovens. Há 30 anos, ouvi um comentário chocante, mas que, infelizmente, não pode ser provado: o de que uma escolinha maternal colocava calmante na água das crianças para não ter muito trabalho com elas. Hoje, são os próprios médicos que receitam calmantes e drogas diversas. Se você está triste, tome um antidepressivo. Se você tem pânico, tome o medicamento adequado. Se você tem pouca energia, tome um estimulante.

Há uma indústria farmacêutica que gasta rios de dinheiro para faturar muito mais com a noção de que as pessoas devem viver dopadas. E o pior é que as pessoas levam isso a sério!

 

 

“Cara de pobre”

O Brasil tem muito preconceito, boa parte deles disseminados pelo conteúdo da programação das TVs abertas. O mais frequente é o que atesta que vida de rico é um mar de rosas. Junto com isso, também vem a (falsa) ideia de que há alguns sinais inequívocos de riqueza, a saber: beleza física (principalmente se for um biótipo do tipo loiro de olhos azuis), falar corretamente, jeito de se apresentar etc. E, o mais preocupante, a crença de que se pode (ou deve) arrancar dinheiro de ricos porque esses teriam bufunfa de sobra.

Assim, quando um aparente rico vai ao sapateiro para trocar uma sola, o preço é um. Quando vai alguém com “cara de pobre”, o valor pode cair pela metade. O tratamento diferenciado entre um aparente rico e um pobre declarado se repete em várias coisas, com inúmeras variações. Enquanto o pobre gera uma certa simpatia, o rico provoca um certo desdém público em algumas situações, mas essa reação pode se inverter em outras ocasiões.

Mas viver nesse emaranhado de preconceitos e ideias falsas é muito complicado e desgastante. Deixa-se de lado o foco no que está se fazendo (negociando um produto ou serviço, solicitando um serviço público etc.) e a atenção passa a girar em torno de um punhado de noções vagas e sem qualquer fundamento. Conversando com minha amiga Cris sobre alguns eventos recentes, ela me dá uma receita para lidar com isso: basta fazer “cara de pobre”.

Como se faz cara de pobre? Segundo a Cris, primeiro é preciso falar meio errado, sem usar o plural. Em segundo lugar, é bom fazer cara de tonta(o). Terceiro: mostrar que você não é tonta(o). Quarto: dizer algo como “Ô, moço, arruma um negocinho legal pra mim e que não esfole o que ganho, suo muito pra ganhar esse dinheiro.” Em quinto lugar, ela recomenda: “não mexa muito as mãos, fique com elas pra trás ou com o braço cruzado. Fique meio dura, não rebole muito. não levante o queixo, franza as sobrancelhas e faça cara de coitada” Por último, ela diz: “não ria quando lembrar disso tudo na hora em que estiver fazendo o teatro.”

Morri de rir. Mas a Cris me garante que quando se começa a falar muito certinho, as pessoas mais simples acham que a gente é metida e, por isso, é bom sempre soltar algo do tipo: “nóis vai lá então?”

Fico pensando nessa coisa de cara de pobre, que me parece verdadeira e que gera uma série de reflexões que englobam desde o conteúdo da TV aberta até o perfil antropológico do brasileiro. Achei interessante colocar o assunto em meu blog porque creio que isso merece uma discussão mais aprofundada.

Ritos de passagem

Simpatias para o ano que se inicia não faltam: pular sete ondas, comer lentilhas, usar roupa branca… São rituais que marcam a passagem de um ciclo a outro, os ritos de passagem. E por que uma virada no calendário é assim tão importante? Por as badaladas de um relógio num determinado horário fariam tanta diferença?

Pouca gente sabe, mas, na verdade, Jesus Cristo não nasceu no dia de Natal. Algumas pesquisas indicam que o nascimento dele foi em abril, outras em setembro. O fato é que a data exata é desconhecida. Séculos mais tarde, quando a igreja católica estava se consolidando, resolveu-se escolher o 25 de dezembro para marcar o acontecimento porque essa é a data do soltíscio de inverno no hemisfério Norte.

Em regiões mais afastadas do Equador, o dia fica muito longo no verão, e muito curto no inverno. Em Londres, por exemplo, amanhece às 4 da manhã e escurece às 10 da noite no verão; mas no inverno o sol aparece às 10 horas e se põe às 4 da tarde. Conforme o inverno vai chegando, o dia vai encurtando, com cada vez menos horas de sol. Porém, a partir do soltíscio, que marca o início do inverno, o dia vai ficando gradativamente mais longo.

O simbolismo do soltíscio é grande: significa o nascimento do sol, o fim das trevas e o início de um novo tempo. O calendário que usamos, cristão, colocou o nascimento de Jesus no soltísticio do inverno para ressaltar o significado do nascimento do sol, e da vida, junto com ele. Uma semana depois, o ano novo seria, então, o início de um novo ciclo.

Mas não adianta agir com esmero excepcional em uma data e ser relapso em todas as outras. Afinal, hoje, sempre, é o início do resto da sua vida.

 

A passagem do tempo

Hoje é meu aniversário. Desde criança, essa data mexe comigo. Ficava frustrada quando criança por não ter oportunidade de chamar os amigos da escola para festinha, pois não tinha aula e todos estavam viajando. Mais irritada ainda ficava com a mania de dizerem que então não seria preciso presente de Natal, ou de aniversário, já que as duas datas praticamente coincidiam. Ou seja, nunca tive oportunidade de comemorar aniversário como todo mundo.

Cresci e a passagem do tempo começou a ter outro significado para mim. Na adolescência, seria a ponte que me levaria à idade adulta, quando eu poderia fazer um monte de coisas que me eram proibidas (como assistir todos os filmes que eu gostaria de ver). Na juventude, era a confirmação de que eu já era merecedora de respeito por parte de todos já que eu tinha me transformado em um ser humano por completo (ou, na linguagem popular, eu já era “de maior”).

Alguns anos mais tarde, na passagem para os 30 anos, o tempo passou a me aterrorizar um pouco. Não sabia o que poderia esperar, mas todos diziam que o declínio da vida viria em seguida. Depois de mais algum tempo, descobri que isso era mentira. Pelo contrário, acho que somente nesta fase é que aprendi que a vida pode ser muito mais prazeirosa depois que se percebe que as coisas que davamos importância demasiada não são tão importantes assim. Por exemplo, quando somos adolescentes, achamos que um fora do(a) namorado(a) é o que de pior pode acontecer em nossas vidas. Aos 40 anos, vemos que isso não passa de uma bobagem e que há muitas coisas maravilhosas que vieram depois – inclusive namorados(as) mais interessantes.

Nessa fase, tive a maior das descobertas de minha vida: envelhecer é bom, pois adquire-se maturidade e a passagem dos anos fica mais tranquila. Costumava dizer a mim mesma:“se aos 20 anos eu tivesse a cabeça que tenho hoje, minha vida teria sido bem diferente, e bem melhor.” Em suma, ganhei contentamento.

E conforme fui me aproximando dos 50, verifico que a vida encontra uma espécie de encruzilhada nesse ponto, já que as pessoas costumam tomar caminhos distintos. É aqui que a existência humana toma uma decisão fundamental sobre o rumo que deverá seguir: ficar se lamentando pelo que não se fez e pelas alterações físicas que acontecessem nessa fase da vida ou abrir mão de muitas crenças que só nos atrapalharam até aqui (inclusive a de que inevitavelmente ficaremos velhos, doentes e solitários). Obviamente, eu escolhi a segunda alternativa.

Sede de sangue feminino continua no Irã

Mais uma iraniana está em perigo no Irã por conta da misoginia das leis islâmicas. Shahla Jaahed foi condenada pela morte da esposa de seu amante em um julgamento viciado. Uma corte islâmica a condenou antes mesmo de ela dar seu depoimento e da devida investigação criminal. A execução de Shahla está marcada para os próximos dias e a organização Stop Stonning Now (Cessem imediatamente os Apedrejamentos) acredita que o governo quer executa-la apenas para mostrar sua força diante da pressão internacional contra a excecução de Shakineh, outra mulher condenada injustamente no Irã (leia neste blog), que ainda está viva.

A enfermeira Shahla apaixonou-se pelo jogador de futebol Naser Mohammad-Khani, famoso no Irã. Os dois passaram a morar juntos depois que ele largou a esposa, Laleh Saharkhizan. Laleh foi assassinada e a polícia iraniana prendeu Shahla quando Naser estava na Alemanha. Shahla foi torturada para confessar que era a assassina, mas negou a autoria do crime durante a audiência.

O laudo da polícia mostra que seria impossível Shahla ser a assassina: Laleh foi violentada antes de ser morta, as facadas foram desferidas por um canhoto e Shala é destra e há uma série de outros detalhes que revelam a farsa judicial. Se você quer ajudar Shahla de alguma forma, coloque seu nome no abaixo assinado que tenta impedir sua execução, que pode ser acessado pelo link: http://www.gopetition.com/petitions/free-shahla-jaahed/sign.html#se.

Precisamos nos mobilizar, pois se Shahla for morta, outras mulheres inocentes também podem seguir o mesmo caminho no Irã. A sede de sangue nunca pode ser satisfeita e por isso é preciso acabar com a execução de mulheres nos países islâmicos.

Post Scriptum: Acabo de saber que Shahla foi executada na manhã de hoje, 1º de dezembro de 2010.  Esperemos que esta seja o último assassinato deste tipo empreendido pelo regime de Teerã.

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