o que nem sempre é dito, mas deveria ser

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8 de março?

Dia da mulher não é 8 de março; é todo dia.

Lugar de mulher não é na cozinha, nem no quarto nem na sala… É em todo lugar.

Mulher não é mãe, irmã, companheira… É ser humano.

Mulher não gosta de sapato, roupa, flores, maquiagem… Gosta apenas de viver feliz.

Todo o resto é produto de uma sociedade que insiste em colocar rótulos em tudo e fazer as pessoas se sentirem inseguras para, assim, perpetuar o consumo de coisas supérfluas.

Não se pode mais levar o Carnaval a sério!

              O espetáculo momesmo do roubo dos votos dos jurados do carnaval paulistano, bem diante das câmaras de TV e debaixo do nariz da polícia, só nos leva a uma conclusão: não se pode mais levar nem mesmo o carnaval a sério! Afinal, embora pouca gente saiba, carnaval é algo muito sério.

Há cerca de dez anos, um amigo, conhecido jornalista, comentava acerca de uma matéria que tinha feito, e que não conseguiu veicular. Ele defendia que se aplicasse as regras do carnaval à política no Brasil. Se uma escola de samba atrasa, perde pontos. Se as fantasias e adereços estão irregulares, idem. Com perda de pontos, escolas de samba perdem verbas e oportunidades. Enquanto isso, políticos vivem faltando às sessões, atrasam votações e fazem uma série de peraltices sem que nada aconteça… Pelo menos, até a semana passada era assim.

O carnaval tem muita seriedade também no tocante aos negócios. Além de promover a imagem do Brasil em todo o mundo, movimenta uma infinidade de ações de marketing, cria riquezas para redes de TV, movimenta o setor de turismo e aquece os negócios dos fabricantes de cerveja gelada… Só parece não trazer muito benefício monetário para o sambista que economiza o ano todo para brilhar na avenida com o luxo que qualquer pobre gosta (Joãozinho Trinta foi um gênio ao perceber que só intelectual gosta de miséria porque os pobres adoram é o luxo).

Mas agora, São Paulo mais uma vez inovou. Tucanos parecem gostar de privatização mesmo, tanto que privatizaram a PM e a Justiça, que serve a interesses privados. Não importa que o “dono” do Pinheirinho deva milhões ao Erário, coloca-se 2 mil PMs para defender o seu direito de propriedade. Mas não se coloca policiamento adequado para um dos mais importantes eventos do calendário de festas da cidade. E olha que todo ano tem briga e confusão durante o evento da apuração do carnaval paulistano.

Enfim, o carnaval paulistano agora parece brincadeira. Não dá mais para brincar nesse carnaval.

O BBBuraco é mais embaixo

                O caso do estupro na casa do BBB está dando o que falar nas redes sociais e não vou ficar chovendo no molhado e repetir que o fato de a menina não ser recatada não justifica, que não foi racismo, que o vídeo foi transmitido para todo o Brasil, que TV é uma concessão pública etc. Apenas acho que algumas outras questões passaram batido. A principal é a atitude da Globo de tentar vender gato por lebre.

No domingo a noite, Pedro Bial, que já foi um jornalista de grande credibilidade antes de virar essa caricatura que hoje aparece no vídeo, praticamente começou o programa com a frase: “O amor é lindo!” Foi uma tentativa de querer transformar um estupro em um caso de amor. Aliás, a própria maneira como a produção agiu, perguntando o que houve à participante que foi violentada, enquanto inconsciente, é absurda. Óbvio que alguém inconsciente não sabe o que aconteceu enquanto estava apagada. Então, nada mais era do que uma tentativa de distorcer fatos e fazer com que ela dissesse que nada houve e se colocasse uma pedra sobre o assunto.

Mudar a realidade em um “reality show” é, no mínimo, um contrasenso. Agora a tentativa de fazer com que a “sister” acreditasse que nada aconteceu é um segundo estupro. Aliás, nem os telespectadoes escaparam disso. Na segunda-feira, Bial disse para o Brasil inteiro que Daniel foi expulso do programa por “desrespeitar o regulamento”, sem explicar que item do regulamento foi desrespeitado (aliás, não há qualquer menção a esse regulamento para que possamos consultá-lo).

Sonegou a informação de que nas 24 horas anteriores as redes sociais cobraram a cabeça do rapaz e essa foi uma exigência da polícia para manter o programa no ar. E os telespectadores que não participam de redes sociais ficaram “boiando”. Esses mereciam no mínimo uma satisfação, uma explicação. Aliás, os participantes da casa, também.

Outra questão que merece debate é a atitude das pessoas diante de uma denúncia grave como essa. Surpreendi-me com um amigo, pelo qual tenho muita consideração, que acabou incorporando o santo do Rafinha Bastos em seus comentários. Aliás, várias pessoas chegaram a dizer que tudo deveria ser encenação, que quem entra num programa como o BBB está sujeito a isso, que não se poderia esperar outra coisa… Ou seja, segundo essa argumentação, denúncia de estupro só merece ser apurada se for na minha casa, ou na sua; não na rua, no metrô, no puteiro, no BBB…

Desviei de provocações no Twitter e no Facebook. Houve quem disse que se estava condenando o sujeito antes do devido processo, sem direito à defesa ampla e contraditório etc. Como se não houvesse um crime que foi transmitido para todo o Brasil, e com autoria conhecida. O que a Justiça vai discutir é as circunstâncias, os atenuantes (se houver) e a pena.

Impressiona ver que crime transmitido pela TV é considerado obra de ficção nesse País!

“É só um cachorro!”

                Certa vez, passeava com minhas duas cachorrinhas na avenida Liberdade quando um garoto tentou chutar uma delas. Instintivamente, joguei minha mão contra ele, mas ao ver que se tratava de uma criança que teria no máximo três anos, minha mão parou antes de atingir seu rosto. Estava perplexa quando ouço alguém, a pelo menos cinco metros de distância, do lado de dentro de um supermercado, gritar: “Você não pode bater no meu filho.”

Nem me ocorreu perguntar o que o garoto fazia sozinho na calçada, pois ele poderia sair para o meio da rua e ser atropelado. Apenas respondi, irritada, que eu não tinha batido, mas que ele estava chutando minhas pequenas cachorros (cada uma têm quatro quilos e eu costumo dizer que não são cachorros de verdade, mas apenas bichinhos de pelúcia vivos).

Bom, só depois disso é que ela saiu do mercado e veio para junto do filho; não para cuidar dele, mas para bater boca comigo. Durante a discussão do tipo, você bateu/eu não bati, o garoto ainda tentou bater em uma das minhas cadelinhas salchichas. Eu falei para o garoto, apontando o dedo para a cara dele “Não se bate sem motivo, assim; não se deve bater em cachorro.” (A sorte dele é que minhas cachorrinhas são dóceis, mas um cachorro de temperamento mais agressivo poderia reagir e, depois, diriam que o bicho é bravo, que deveria ser sacrificado…) E também disse à mãe que era preciso educar a criança desde pequeno.

Qual não foi o meu espanto ao ouvir da mãe: “mas por que tudo isso? É só um cachorro!” Foi aí que comentei, pensando em voz alta: “como você pode dar a ele o que você não tem? Você não tem educação, como pode educá-lo?” Ela, então, pegou o garoto e saiu correndo dali.

Mas é algo extremamente grave quando um garoto agride um bicho que está apenas passando na rua e a mãe diz que é só um cachorro, como que a dizer que o cão não merece respeito. Provavelmente tiveram mães assim os garotos que há algum tempo queimaram um índio em Brasília porque pensaram que era só um mendigo, ou os pitboys que surraram uma empregada doméstica que aguardava o ônibus no Rio porque pensaram que era uma “só” prostituta.

Gente que não é capaz de demonstrar respeito por um cão não respeita nada nem ninguém. Aliás, cães sempre demonstram amizade incondicional pelos seres humanos, mas o inverso não é verdadeiro e, por isso, costumo dizer que minhas cachorras são mais gente que muita gente por aí.

Isso tudo é um desabafo ao ver tanta crueldade gratuita com os animais ultimamente, desde a doida que matou um pobre yorkshire até a assassina fria que desovou cerca de 30 corpos de cães e gatos em uma noite. Ah, não podemos esquecer do mecânico que torturou o rotweiller dele porque ficou descontente com alguma coisa que ele fez.

O sujeito não faz isso com outros seres humanos por pura covardia, já que teme consequências. O sadismo contra animais é apenas um escape para personalidades doentes, que precisam extravasar sua crueldade. Se não tivessem bichos indefesos à sua mercê, fariam isso com seus semelhantes.

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Mulheres pobres

O programa Mulheres Ricas está realmente dando o que falar no twitter. Eu mesma não assisti o episódio que foi ao ar na segunda-feira, mas com tantos links e falatório, já estou por dentro de tudo. Só não entendi o por quê do título. Convenhamos que há vários tipos de riqueza – material, espiritual, artística… –, mas exibicionismo não pode ser assim considerado. O que é exibido no programa é uma sucessão de lugares comuns e fantasias – algumas delirantes até – acerca do que o povão pensa que é ser rico.

Muitos anos atrás um casal de amigos abriu um estabelecimento comercial promissor. Tratava-se de uma loja de pastéis em um ponto badalado dos jardins. Ganhavam dinheiro, mas a custa de um trabalho insano. “Queria ter negócio próprio e na minha cabeça eu não iria trabalhar no dia em que preferisse ficar em casa; mas tem conta de aluguel, luz, funcionário etc e se deixo de abrir um dia, o prejuízo é muito alto”, avaliou Henrique depois de algum tempo. Sua conclusão é que como empresário ele tinha muito menos liberdade do que como empregado, pois tinha virado escravo do negócio.

Ricos de verdade não andam por aí se exibindo, até por medo de sequestro. Alguns realmente tem boa vida, mas são exceções, e não a regra. O rico fica a todo momento pensando em sua empresa e em como administrar seus bens, coisa que ocupa muito tempo. Nada a ver com a pose do sujeito que fica o dia todo bebendo champanhe e comendo caviar – a caricatura sempre presente nos enredos de novelas que passou a ser confundida com um retrato fiel do rico pelo grande público.

Boa parte dos ricos verdadeiros que acumulam cifrões também acabam reunindo riqueza cultural, pois uma das boas coisas que o dinheiro pode comprar é viagens e acesso ao que há de melhor nas artes. Adquirem assim um senso estético refinado, mesmo quando não têm mais dinheiro (o que acontece com frequência com famílias tradicionais depois de algumas gerações). Bem diferente de gente sem nenhum senso estético, que compra o que há de mais espalhafatoso apenas para mostrar (mesmo que não ostensivamente) que estes artigos tinham etiquetas com muitos zeros. Isso é algo de uma pobreza impressionante!

Por que será que as pessoas se recusam a enxergar a riqueza que existe em suas próprias vidas – com os relacionamentos, acontecimentos do dia a dia, qualidades pessoais, atitudes etc. – e ficam a sonhar com a vida idiota dos “ricos” que a TV mostra?

O efeito papagaio na web

                Nos anos 70, quando morei em Londres, uma coisa me chamava muito a atenção. Lá não havia analfabetismo e era comum ver gente lendo jornal nos ônibus ou metrô. Mas, surpreendemente, poucas pessoas liam as notícias. A maioria comprava jornal para ver os anúncios de ofertas das grandes lojas! Também liam sobre esportes e, é claro, escândalos. Naquela época, boa parte da população brasileira ainda era analfabeta (os da minha geração devem se lembrar do Mobral) e eu e meus amigos acreditávamos que uma população alfabetizada seria bem-informada. Por isso, a visão das pessoas abrindo o jornal simplesmente para ver anúncios e bobagens me deixava pasma!

Hoje, mesmo com a web, verifico que é muito comum o efeito papagaio, com as pessoas repetindo qualquer baboseira e achando que dizem verdades profundas. Pelo menos é essa a sensação que tenho em relação ao que foi dito acerca de William Waack nos telegramas vazados pelo Wikileaks. Os relatórios da diplomacia dos EUA dizem que seus funcionários conversaram com Waack e contam quais as opiniões que ele expressou. Apenas isso!

As pessoas ignoram, e fazem questão de ignorar, que jornalistas e diplomatas são profissionais que precisam estar sempre bem-informados. E que, por isso, costumam conversar para trocar opiniões, algo que no jargão profissional é conhecido como “trocar figurinhas”. Um jornalista costuma trocar figurinhas com qualquer pessoa que possa ter alguma informação relevante, de diplomatas a bandidos – acredito que os diplomatas são mais seletivos, mas não tenho certeza – ; e isso constitui o que costuma ser chamado de “ossos do ofício”.

O fato de Waack ser âncora de um telejornal é irrelevante nisso. Aliás, quem leu os relatórios (disponíveis em cablesearch.org, basta digitar o nome do jornalista para ler os relatórios em que William Waack é citado) sabe que ele apenas expressou opiniões pessoais e informações banais, algumas que se provoram até equivocadas depois, como quando disse que Serra e Aécio haviam selado um acordo para formar uma chapa que teria o mineiro como vice. É bom observar que niguém acusou outro jornalista, Helio Gurovitz, da revista Época, de ser informante dos EUA, apesar de ele ser citado em um dos telegramas que fala sobre uma conversa com Waack.

Outro exemplo de bobagem reverberada pela web é a questão da doença de Lula e do SUS. O fato é muita gente apenas presta atenção no que sustenta suas opiniões. São muito poucas as pessoas capazes de dialogar, mesmo em tempos de web. Uma pena!

A anta autista

            “Sua anta! Você só tem dois neurônios!” era o conhecido bordão de um programa “humorístico” de grande audiência há alguns anos. Hoje, com bastante frequência, quando não diariamente, vejo ofensas serem proferidas como se fossem tiradas de humor. E programas de televisão que recorrem a esse artifício vil costumam ser muito populares. Mas é estranho que a associação de ofensa com humor não cause estranheza nesse País em que falar mal de alguma coisa é algo que é confundido com espírito crítico e falar mal de alguém, seja celebridade ou vizinho, é esporte nacional. Parece que a sociedade brasileira é autista, pois tem transtornos de comunicação e cada um vive em seu próprio mundo.

Até onde me lembro, essa mania de maldizer a boca pequena inicou-se na época da ditadura, quando se vivia maldizendo os generais governantes e, principalmente, seus ministros da Economia. Recordo também que foi nessa época, lá pelos anos 70, que as novelas começaram a ganhar terreno e se transformaram, gradualmente, no fenômeno de massa que são hoje. Falar mal da personagem que parecia não ter caráter, ser vulgar ou qualquer outra qualidade também se tornou um must. Aliás, personagens de novela normalmente são mais falados do que as pessoas reais da própria família.

Foram inúmeros acontecimentos em que o País foi mudando pouco a pouco, e o hábito de falar mal foi se tornando cada vez mais arraigado. Resultado? As pessoas falam sem saber do que, apenas pelo costume de repetirem ad infinitum algo que ouviram anteriormente. Por isso, “mulheres são piranhas”, “solteiras são as que têm algum problema”, “é só uma criança (ou um cachorro)”…. Enfim, o desrespeito e ofensa correm soltos e as pessoas nem se dão conta. Não percebem o outro, nem o que disseram.

Exemplo disso eu tive recentemente. O dono do cão que assassinou minha cachorrinha de estimação, por exemplo, me disse que havia tempos que me via passeando com meus bichinhos (tinha duas cachorrinhas e agora só tenho a sobrevivente) e que, como queria se aproximar de mim, foi bom ter acontecido esse fato. Ou seja, ele fala com todas as letras que não reconhece a minha tragédia, só o desejo dele.

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