o que nem sempre é dito, mas deveria ser

generalMuitos anos atrás, eu tinha uma amiga que engravidou. Ela tinha já um filho que, se bem me lembro, tinha 5 anos e ficou entusiasmado com a perspectiva de ganhar um irmãozinho. O garoto começou a chamar o bebê que ainda estava na barriga da mãe de André e, quando nasceu, acabou recebendo esse nome.

O irmão mais velho curtiu a chegada de André, mas aos poucos foi se desencantando. O bebê só ficava o dia todo dormindo, não era aquele irmão companheiro de brincadeiras com quem ele sonhava. E, ainda por cima, André roubava todas as atenções de quem estivesse por perto. Assim, o irmão mais velho já não era mais o reizinho da casa por causa dele.

Então, algumas semanas depois do nascimento de André, o garoto de 5 anos chegou para a mãe e disse que já era hora de o bebê ir embora. A mãe disse que isso não seria possível, que André não tinha para onde ir. Então, o garoto disse: “Já que ele não tem para onde ir, a gente mata ele e resolve o problema.”

É claro que André continuou vivo. Como minha amiga morava a 400 quilômetros de distância, acabei perdendo o contato com ela, mas acredito que hoje André e seu irmão sejam grandes amigos e companheiros. Afinal, o garoto que na época tinha 5 anos era apenas uma criança e, como tantos de sua idade, via muito filme idiota na TV.

Por que estou contando essa história? Porque hoje parece difícil achar alguém com mente adulta. A maior parte das pessoas que vejo por aí são crianças crescidas. Uma criança ainda não tem capacidade de considerar as necessidades dos outros à sua volta, vê apenas os seus próprios anseios, que para ela são urgentes. Então, quando as coisas não correm como o desejado, sugerem soluções como matar o oponente, anular eleições, pedir golpes militares…

E qual seria o motivo de se encontrar tantas crianças crescidas nesse País? A explicação pode não ser muito evidente, mas é bem simples: a ditadura militar, que oficialmente terminou há quase 30 anos, continua a gerar frutos. Militares não discutem ordens, apenas as cumprem. No poder, levaram essa máxima ao sistema educacional brasileiro. Era proibido questionar. Assim, criaram uma geração que não é capaz de dialogar, de ouvir o próximo – seja aliado ou oponente –, de buscar soluções negociadas… Aliás, desconfio que essa situação já perdura por duas ou três gerações.

Essa incapacidade de dialogar acaba recorrendo a soluções de violência, física ou moral. Em vez de encarar problemas, desqualifica-se quem os aponta. Em vez de conversar, parte-se para o pugilato. É esse o pessoal que pede anulação das eleições e intervenção militar. Quando vão crescer?

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Comentários em: "Os filhos da ditadura" (1)

  1. Bravo, Silvia … muito bem escrito e idealizado …

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