o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Fora PM!

Há alguns dias, encontrei no metrô estudantes da USP que estavam a caminho de uma manifestação. Ostentavam adesivos onde estava escrito “Fora PM!” e estampado o desenho de uma placa de trânsito com a tarja de proibido sobre uma cochinha. Perguntei o por quê do salgado no adesivo e (vivendo e aprendendo) me informaram que os PM hoje são conhecidos por “cochinhas”.

Na conversa, lembrei meus tempos de USP, já longínquos. Entrei na universidade em plena ditadura militar e a presença de policiais a paisana no campus era constante. Eles, inclusive, costumavam se infiltrar nas aulas para saber o que era dito – em uma época em que a simples suspeita de ideias discordantes com as deles poderia ser fatal. Aos poucos, os estudantes foram ganhando as ruas e conseguiram transformar tempos sombrios de ditadura em uma democracia razoavelmente sólida, como a que temos hoje.

É claro que nem todos os estudantes foram às ruas, mas principalmente os de ciências humanas, que são os que agora se mobilizam. Os que estavam na área de exatas eram chamados de “alienados”, na época, por se furtarem a viver os anseios políticos que nos animavam. Isso é o que está acontecendo agora e não é gratuito. É sabido que os jovens escolhem cursos universitários de acordo com seu perfil. Assim, jovens idealistas acham engenharia uma coisa muito chata; os que querem mandar nos outros e ganhar dinheiro são os que buscam cursos de administração ou engenharia… O fato é que sempre foi a Ciências Humanas da USP que liderou as grandes mobilizações estudantis do País.

A questão atual é escamoteada como uma questão de segurança. Creio que muita gente não sabe, mas o campus da USP é também chamado de cidade universitária. O nome não é uma mera alegoria: a extensão da área é digna de uma verdadeira cidade. Cada escola tem seu próprio prédio, quando não mais de um. A escola politécnica, por exemplo, que é a faculdade de engenharia, tem um prédio para os dois primeiros anos e vários outros mais, um para cada especialidade (elétrica, minas, naval etc.). O campus conta ainda com uma área esportiva, uma área residencial, prefeitura própria (sim, tem uma prefeitura própria, com sua própria segurança), um hospital universitário, hospital veterinário, alguns institutos de pesquisa… Tudo isso em meio a amplas avenidas arborizadas. Há duas linhas circulares de ônibus que transportam pessoas (estudantes, funcionários, professsores ou apenas usuários dos inúmeros serviços prestados pela universidade, como atendimento veterinário, psicológico, bibliotecas, museus, refeitórios…) entre os vários prédios.

Nos anos 70, quando lá estudei, o campus ficava praticamente na periferia, mas a cidade foi crescendo e vários bairros (e favelas também) foram erguidos em seu entorno. Previsivelmente, a questão da segurança começou a preocupar, mas isso aconteceu em todo o País. Nos anos 70, uma pesquisa indicou que os cidadãos brasileiros tinham mais medo da polícia do que dos bandidos. Hoje, acredito que ocorra o inverso, mas isso acontece por uma série de motivos. A violência alcançou um nível absurdo na sociedade brasileira e foram impostos limites (ainda tênues, é verdade) à atuação da polícia militar, sempre conhecida por sua truculência.

O campus sempre contou com uma segurança própria, provavelmente defasada com o tempo. Um incidente infeliz (o assassinato de um estudante em uma tentativa de assalto) foi o pretexto para levar a PM para o interior do campus. Mas, em vez de cuidar da segurança dos usuários do local, a PM estava agindo como bedel de escola, querendo impor disciplina aos estudantes. E esse é o grande problema. Lembra os policiais que nos anos 70 frequentavam aulas para espionar a comunidade universitária.

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Comentários em: "Fora PM!" (1)

  1. Bruno disse:

    É absurdo como o governo do estado transformou uma instituição tão respeitável em piada em tão pouco tempo.
    90% da população acredita que o corpo de alunos da USP é formado por maconheiros ricos, que só se revoltaram para poder fumar em paz.
    Não fazem o minimo esforço para entender os motivos dos estudantes. Não fazem esforço para tirar o véu de mentiras que lhes cobre os olhos.
    Na boa, essa classe média paulista é nojenta. Merece o governo tirano e despótico que tem.
    Não sou estudante da USP, sou operário, e pago pela minha educação, que nem universitária é mas não posso fingir que não vejo um governo que tenta claramente calar a voz do movimento estudantil e ainda conta com o apoio da mídia.

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