o que nem sempre é dito, mas deveria ser

            “A crise da dívida externa latino-americana nunca existiu; o que houve foi um erro dos bancos, que tinham dólares de sobra em seus cofres e acabaram emprestando sem critérios.” Ouvi essa frase há pouco mais de 20 anos de um acadêmico de Oxford, que entrevistei. O detalhe é que antes ele tinha sido chefe de gabinete do Banco Mundial e, portanto, sabia muito bem do que falava. Segundo ele, os bancos sabiam que seus devedores não tinham condições de pagar quando lhes concederam empréstimos nos anos 70. A crise da dívida estorou nos anos 80, que foi considerada a década perdida para a América Latina.

No início dos anos 90, época em que o entrevistei, bancos pressionavam governos latino-americanos para que pagassem juros que eram simplesmente impagáveis e surgia uma proposta ousada formulada por Washington: o Plano Brady. A ideia era que os bancos deveriam abrir mão de parte dos juros que lhes eram devidos para que os países devedores pudessem pagar suas dívidas. E o grande impasse dizia respeito a quem ficaria com a conta: se o governo americano, responsável pela proposta, que acabaria passando a despesa para os contribuintes; ou os bancos, o que representaria um ônus para os seus acionistas. Foram esses últimos os “prejudicados” (depois de terem prejudicados metade do mundo, é claro). Mas o problema acabou sendo resolvido e hoje pouca gente se lembra dessa crise da dívida.

A crise da dívida hoje tem outros atores, mas o enredo é praticamente o mesmo. Primeiro foram pessoas que receberam créditos além de sua capacidade, o que gerou uma crise bancária. Em vez de abrir mão de parte do que teriam a receber, os bancos preferiram passar o chapéu nos gabinetes de governos, que atenderam à essa demanda a pretexto de evitar uma “crise sistêmica”. Muitos desses governos hoje estão endividados e a briga continua para ver quem é que vai pagar a conta por problemas que foram criados por uma gestão irresponsável de banqueiros.

Surpreendente que ninguém pareça lembrar do mecanismo do Plano Brady, que anistiou apenas uma parte da dívida, representada pelos juros. Parece que a opção de ganhar menos não existe para quem quer ganhar tudo.

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