o que nem sempre é dito, mas deveria ser

A anta autista

            “Sua anta! Você só tem dois neurônios!” era o conhecido bordão de um programa “humorístico” de grande audiência há alguns anos. Hoje, com bastante frequência, quando não diariamente, vejo ofensas serem proferidas como se fossem tiradas de humor. E programas de televisão que recorrem a esse artifício vil costumam ser muito populares. Mas é estranho que a associação de ofensa com humor não cause estranheza nesse País em que falar mal de alguma coisa é algo que é confundido com espírito crítico e falar mal de alguém, seja celebridade ou vizinho, é esporte nacional. Parece que a sociedade brasileira é autista, pois tem transtornos de comunicação e cada um vive em seu próprio mundo.

Até onde me lembro, essa mania de maldizer a boca pequena inicou-se na época da ditadura, quando se vivia maldizendo os generais governantes e, principalmente, seus ministros da Economia. Recordo também que foi nessa época, lá pelos anos 70, que as novelas começaram a ganhar terreno e se transformaram, gradualmente, no fenômeno de massa que são hoje. Falar mal da personagem que parecia não ter caráter, ser vulgar ou qualquer outra qualidade também se tornou um must. Aliás, personagens de novela normalmente são mais falados do que as pessoas reais da própria família.

Foram inúmeros acontecimentos em que o País foi mudando pouco a pouco, e o hábito de falar mal foi se tornando cada vez mais arraigado. Resultado? As pessoas falam sem saber do que, apenas pelo costume de repetirem ad infinitum algo que ouviram anteriormente. Por isso, “mulheres são piranhas”, “solteiras são as que têm algum problema”, “é só uma criança (ou um cachorro)”…. Enfim, o desrespeito e ofensa correm soltos e as pessoas nem se dão conta. Não percebem o outro, nem o que disseram.

Exemplo disso eu tive recentemente. O dono do cão que assassinou minha cachorrinha de estimação, por exemplo, me disse que havia tempos que me via passeando com meus bichinhos (tinha duas cachorrinhas e agora só tenho a sobrevivente) e que, como queria se aproximar de mim, foi bom ter acontecido esse fato. Ou seja, ele fala com todas as letras que não reconhece a minha tragédia, só o desejo dele.

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Comentários em: "A anta autista" (1)

  1. Impressionante o que vc comentou no fim do seu post . parece que a insensibilidade é reinante no país . parabéns pelos artigos

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