o que nem sempre é dito, mas deveria ser

              A descoberta de que a Zara usa trabalho escravo pode ser chocante, mas não surpreende quem acompanha questões laborais no Brasil. Frequentemente, lemos notícias de que foram libertados trabalhadores rurais submetidos a regime de escravidão, mas pensa-se que os trabalhadores urbanos estão livres disso. Agora, o risco é se pensar que apenas imigrantes ilegais passam por isso, quando a realidade é outra.

Boa parte da minha vida profissional foi dedicada ao jornalismo sindical e, assim, vim a saber de histórias que são de arrepiar. Por exemplo, há grandes redes de supermercados em São Paulo que insistem em desrespeitar jornadas de trabalho. Muitas vezes, registram um funcionário como chefe de si mesmo (porque fica sem subordinados) apenas para dispensar o cartão de ponto. Assim, muitos trabalhadores são submetidos a jornadas de até 12 horas diárias sem o pagamento de horas-extra. Aliás, há casos em que uma vez por mês, eles trabalham por 20 horas ininterruptas para elaborar o balancete mensal da loja.

O banco de horas, recurso que recentemente passou a ser permitido pela legislação trabalhista, deveria resolver isso, mas piorou a situação. Uma vez que se abre a possibilidade de compensar posteriormente as horas trabalhadas a mais em determinado período, a pressão da empresa para que seus funcionários fiquem mais tempo no trabalho aumentou. E os sindicatos suspeitam que, após alguns meses, muitas horas acumuladas simplesmente acabam por sumir dos registros das empresas.

Casos de jornadas de 12 horas diárias, das 10 da manhã até depois das 10 da noite, são comuns em todas as grandes redes de varejo, não só de supermercados. Em lojas de shoppings, encontra-se frequentemente a pressão para atingir metas de venda e há chefes que pressionam os funcionários para que fiquem mais tempo à disposição da empresa na esperança de que isso os ajudaria a vender mais. Isso acontece de várias formas, desde ameaças de demissão a ofensas pura e simples.

O caso mais impressionante que vi foi o de uma grande rede de lojas que, há cerca de 4 anos, tinha 10 mil funcionários em seu quadro de pessoal, mas cerca de 800 empregados estavam em licença médica por problemas mentais – principalmente depressão – por conta do assédio moral no trabalho. Por conta disso, os empregados diziam que trabalhavam em uma “fábrica de loucos”. Mas a empresa ganhou prêmios empresariais relacionados a boas práticas corporativas.

No twitter, entrei em contato com o ex-funcionário de uma rede de livrarias que se recusa a pagar direitos ao demitir um funcionário. Por isso, faz questão de arrumar sempre algum pretexto para “justa causa”. Perguntei ao twitteiro porque não denunciaram o caso ao Ministério Público do Trabalho uma vez que não se tratava de um caso individual, mas uma prática da empresa contra todo o seu quadro de pessoal, e ele simplesmente respondeu que nunca tinham pensado nisso.

Lógico que a prática de ignorar direitos trabalhistas não se restringe a grandes redes, que tem batalhões de advogados prontos a agir caso os “escravos” do século XXI busquem os direitos de sua liberdade de nascença. Pequenos comerciantes que só precisam de um ajudante dificilmente registram esse funcionário. Com muita frequência, alegam que não têm condições de pagar sequer o salário mínimo e pagam o quanto lhes dá na telha. Ou seja, dividem seu risco empresarial com o trabalhador, mas não os seus lucros.

O fato é que há toda uma pressão para que as práticas contra o trabalho nunca sejam denunciadas no Brasil. Começa pelo terrorismo de que o trabalhador que recorre à Justiça dificilmente encontrará outro emprego. Quando a pessoa insiste em buscar seus direitos, a empresa mobiliza batalhões de advogados para desqualificá-la. Acredito que isso ocorra em todos os setores da economia. Será que não está na hora de se iniciar uma campanha do tipo “Respeite os direitos dos trabalhadores”?

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Comentários em: "Senhores e escravos" (2)

  1. O setor da construção civil é absurdo nesse sentido. Os empregados são tratados como animais, sem direito algum. Os sindicatos, ao menos a maioria, são comprados pelas construtoras. É um setor q conheço e tenho nojo.

    • Concordo com você. Aliás, todos os setores são explorados, inclusive operários de construção civil e mesmo trabalhadores de colarinho branco, como jornalistas. Neste post, limitei-me ao segmento do comércio por um único motivo: é algo que conheço muito bem.

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