o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Chegou ao fim a última novela das nove, “Insensato Coração”. Desta vez, houve uma grande novidade: todos os vilões foram parar na cadeia ao final da trama (o banqueiro corrupto, o psicopata vilão e o pitbull assassino). Em 1989, o Brasil ficou frustrado com o último capítulo da novela “Vale Tudo”, em que todos os vilões se deram bem (a Maria de Fátima, personagem interpretada por Glória Pires que era a personificação do oportunismo e falta de caráter, chegou a casar com um príncipe europeu, por exemplo), com exceção da megera Odete Roitman, que foi assassinada pouco antes do final. A nova trama do horário, “Fina Estampa”, promete repetir os mesmos clichês de sempre: ricas futeis e megeras, pobres de bom coração, preocupação com ascensão social…

Conhecidas pelos gringos como “soap operas” por, em seus primórdios, serem tramas que tinham como patrocinadores marcas de sabão em pó (quem ainda se lembra do slogan “Rinso lava mais branco”?), as telenovelas fazem história na América Latina. Muito já foi escrito por gente que se põe a divagar sobre as novelas sob as mais diversas óticas. Seria uma forma de arte? Impõe comportamentos? Retrata a sociedade?…

Indubitavelmente, as telenovelas lançam tendências e ditam moda. Em “Insensato Coração”, por exemplo, uma bandeira social é vendida de forma escancarada: o repúdio à homofobia. Mas telenovela também vende produto comercial – como bebidas, carros, confecções e praticamente qualquer produto, desde que pague o suficiente para aparecer sorrateiramente no enredo –, o que pode ser considerado uma forma um tanto perversa de propaganda já que seu argumento de venda, a preferência dos personagens, é algo que não é real, tem apenas uma existência fictícia.

Mas as novelas ficam bem longe de retratar a realidade. Seus personagens normalmente são caricaturas de mocinhos ou vilões, bons ou maus; não são humanos de verdade, com todas as suas contradições e facetas que dão a cada pessoa real um colorido único. Há algumas exceções, como a personagem vivida por Gloria Pires em “Insensato Coração”, que tem caráter de mocinha e matizes de vilã, uma personagem extremamente humana, que se engaja em uma meta, a vingança, que é o que sustentou a trama até o seu final. Na novela que acaba de estrear, Cristiane Torloni parece ser a megera rica e insensível, um clichê que nasceu junto com as telenovelas, uma personagem previsível, desumanizada…

Ao contrário do que muitos pensam, as telenovelas não retratam o País, mas reproduzem a percepção que os brasileiros têm de seu mundo. Por isso, os ricos são sempre retratados como sem pessoas fúteis e os pobres como batalhadores. A realidade nos oferece alguns ricos fúteis, mas a maioria está empenhada em metas de vida (às vezes, com um certo autoritarismo, é verdade), cheia de responsabilidades, com embasamento cultural etc. Também há pobres batalhadores, mas existem os que são malandros, os que são oportunistas e de tudo quanto é jeito.

Felizmente, essas visões mudam e evoluem. Em “Vale Tudo”, a impunidade rola solta. Em “Insensato Coração”, a impunidade acabou e temos um novo Brasil. Sinal dos tempos.

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Comentários em: "Que País é esse?" (3)

  1. Paschoal Roma disse:

    Oi Sílvia, parabéns pelo texto e pela análise e espero que esse produto “fim da impunidade para ricos e poderosos” seja mais vendido nas boas casas do ramo …. beijo, Paschoal.

  2. Gerson disse:

    Silvia, bela postagem. Você devia divulgar mais seu Blog. Ele é muito bom. bj, Gerson

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