o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Responsabilidade social é um conceito relativamente novo no Brasil. Basicamente, diz que a empresa deve tomar atitudes responsáveis perante a sociedade. Muita gente pensa que isso significa apenas contribuir para algum projeto social, como uma creche ou instituição educacional, para ganhar a simpatia de seus clientes. Mas a coisa vai muito além disso. É uma forma de investimento que preserva o lucro das empresas. O caso da Zara é um exemplo.

Eu mesma não sabia que a Zara faz vista grossa para as condições em que seus fornecedores trabalham. A denúncia de que a empresa terceiriza a produção para fornecedores utilizam mão de obra escrava em plena região central de São Paulo é estarrecedora. Eu (e acredito que muita gente mais), ao saber disso, tomei a decisão de não mais comprar artigos Zara. Mas essa empresa não é uma exceção.

Aprendemos na escola que na Revolução Industrial os trabalhadores das fábricas tinham jornadas de até 16 horas diárias e acreditamos que isso faz parte do passado. Mas não é só em fábricas, como pequenas confecções, que as condições desumanas de trabalho permanecem até hoje. Praticamente todas as grandes redes de varejo do Brasil tem jornadas abusivas. Já entrevistei trabalhadores que são registrados como chefes de algum setor, em supermercados, sem ter subordinados, apenas para que a empresa se furtasse ao pagamento de horas-extra. E o pior: uma vez por mês, para elaborar o balanço do período, eles chegavam a ter uma jornada de mais de 20 horas ininterruptas!

Isso ocorre em vários setores no Brasil, inclusive no jornalismo. Creio que há um certo preconceito cultural aqui que rotula como encrenqueiro quem aponta um problema. É uma espécie de esquizofrênia corporativa. Em vez de se enfrentar problemas, faz-se de conta que eles não existem. De vez em quando, aparece algum executivo querendo criar problemas fictícios apenas para dizer depois que ele os resolveu.

Mas voltando à questão da responsabilidade social, é uma forma de preservar até mesmo a sobrevivência das empresas no longo prazo. Uma empresa que descarta lixo tóxico de forma incorreta, por exemplo, pode ser condenada a pagar por um passivo ambiental décadas mais tarde. Uma empresa que tem problemas com a mão de obra pode ter de arcar com um esqueleto trabalhista descomunal. O mesmo ocorre com empresas que sonegam impostos…

Acredito que as práticas antissociais das empresas cresceram nos últimos tempos com a onda de novidades administrativas que assolaram o mundo corporativo nos anos 90 (reestruturação, downsizing, empowerment, terceirização… – enfim, um monte de palavras bonitas que, bem no fundo, se resumiam a justificar atitudes que tinham como resultado a precarização do trabalho e lucros absurdos que engordaram apenas as contas dos bônus que os gestores teriam direito a receber). Mas entre as mudanças que a web está provocando na vida das pessoas está a descoberta de toda a sujeira que foi varrida para debaixo do tapete.

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