o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Hoje fui surpreendida pelo Estadão, que em seu site dava como manchete: “Greve dos professores da rede pública atinge DF e mais 11 Estados – Categoria quer cumprimento do piso. Não há balanço sobre a quantidade de decentes (sic) parados.” Conclusão: o vetusto jornal não é mais o mesmo.

Antigamente, o Estadão era um jornal respeitado por conta de várias coisas: nunca escondia sua posição conservadora, tinha uma correção linguística acima de qualquer suspeita, dava informações corretas (mesmo com sua posição conservadora)… Ao que tudo indica, o adjetivo com o qual o jornal é conhecido há tempos, vetusto, deixou de significar “Cuja antiguidade deve ser respeitada” para se tornar “Desgastado ou danificado pela passagem do tempo” – ambas definições para a palavra que podem ser encontradas no dicionário digital Aulete.

Trabalhei em jornais, inclusive no Estadão e sei que na correria do dia a dia erros acontecem. Mas confundir docente com decente é um desses erros imperdoáveis. Nos faz pensar que os redatores, quando discentes (alunos), não tiveram professores decentes que lhes ensinassem algumas noções mínimas de português que, seria de se esperar, qualquer jornalista deveria dominar.

Aliás, a notícia dizia respeito a um fato que permanece ignorado por muitos. Há cerca de três anos, foi aprovada uma lei federal que estabelece um piso para o salário dos professores. O objetivo é recuperar a educação do País e atrair talentos para a área, já que os bons professores abandonaram as salas de aula em buca de salários decentes. Mas quem define os orçamentos regionais de educação são os Estados e Municípios, que alegam ser impossível pagar um piso de cerca de R$ 1 mil para professores primários com o antigo curso normal ou magistério (um curso técnico de segundo grau que já não existe). A questão foi ao Supremo, que decidiu que a lei vale, e os professores pedem a sua aplicação.

Conclusão: o Estadão de hoje mostra um retrato do resultado de décadas de descaso com a educação brasileira, em que seus profissionais não sabem que um professor é docente, um aluno é discente e ambos deveriam ter um mínimo de decência. É a falta que a educação de qualidade faz no País.

 

PS: agora a noite, a notícia continua com os decentes, mas a greve está em 22 Estados, segundo o vetusto jornal.

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