o que nem sempre é dito, mas deveria ser

              Muitos anos atrás (talvez décadas), conheci em casa de amigos um pediatra que contava como tinha sido o seu plantão durante o Natal. Chegou uma criança pequena com febre alta e vômitos. O médico pediu exames e não havia funcionários para faze-los, nem equipamentos ou suprimentos adequados para o atendimento. É claro que ele contou isso com muitos mais detalhes e, ao final, ainda lembrou que, para coroar a noite, a ceia natalina veio com o peru queimado e o arroz azedo. Colocou isso tudo em um relatório. Sabem o resultado? A direção do hospital disse que as queixas do médico se resumiam à ceia de Natal com arroz azedo.

Por que retomo uma história tão antiga? Para lembrar que a mania de desqualificar qualquer manifestação política que vai contra o status quo não é novidade. As colocações do médico eram políticas uma vez que diziam respeito a seu trabalho e à coletividade, e não uma queixa individual de uma ceia azeda. A forma de desqualifica-lo é que foi amarga: revelou um desprezo quase absoluto por suas colocações, como se fossem divagações de uma mente inquieta e solitária. É o mesmo que acontece frequentemente com manifestações politizadas e nesse momento ocorre com as revoltas de jovens na Inglaterra, que muitos insistem em dizer que são apenas badernas que passaram dos limites.

Pergunto-me como é possível que uma onda de violência se alastre de uma forma tão abrangente e rápida pode não ser uma questão coletiva? Quer dizer que centenas de baderneiros, por mera coincidência, resolveram agir individualmente ao mesmo tempo por puro acaso?

A questão é outra: como uma sociedade como a britânica pode negar a seus jovens perspectivas de vida? Esses jovens tiveram sua infância na época dos governos conservadores iniciada por Margareth Thatcher. Cresceram com a ideia de que a ousadia de empreender lhes valeria riqueza e meios para consumir os objetos de seus desejos, enquanto uma série de programas sociais eram simplesmente exterminados. Depois, vieram os governos trabalhistas com Tony Blair, que mentiu descaradamente dizendo que o Iraque teria armas de destruição em massa para condenar punhados de jovens à morte em uma guerra insana.

A crise financeira que explodiu no chamado Primeiro Mundo há três anos detonou o governo trabalhista, mas o conservador David Cameron não trouxe novas esperanças aos jovens. Em vez de investir na geração de empregos, cortou gastos e reduziu serviços públicos, embora tenha destinado verba para bancos privados a pretexto de manter a estabilidade da economia.

Parece que os jovens não concordam com os rumos para os quais os políticos conservadores querem conduzir a sociedade britânica. O incêndio que se propaga pelas cidades inglesas é alimentado pelo fogo da revolta. Os tumultos podem até ser contidos pela polícia; mas as demandas dos jovens, não.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: