o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Um samba clássico é aquele do Crioulo Doido, em que o sujeito acaba embaralhando informações. Mas já faz algum tempo que tenho visto algo que poderia ser descrito como o “sambo do sociólogo doido”, em que alguém usa palavras que definem conceitos sociológicos e faz uma salada russa. É o caso do atirador da Noruega, que cita o Brasil como uma sociedade “disfuncional” para justificar seus atos. Ao que tudo indica, disfuncional é a cabeça dele; mas é interessante observar como o uso banalizado de expressões da sociologia está se difundindo no mundo, e como isso acaba sendo usado como justificativa de qualquer coisa.

Quando eu ainda era adolescente, uma leitura me chamou a atenção: uma revista ensinava como criar expressões que impressionam os outros, mas não dizem absolutamente nada – coisas como “paradigma funcional de sistemas”, “padrão aleatório de redes” ou “entropia acelerada de níveis”… O artigo dizia que bastava colocar duas ou três expressões do tipo em um relatório ou apresentação que ninguém iria entender nada, mas as pessoas não iriam perguntar o que significa por receio de se mostrarem ignorantes. Essa estratégia fez escola (creio que dispensa comentários).

Quando eu era criança e adolescente, a “moda” era ser engenheiro porque tinha aquele papo dos governos militares de “Brasil Potência”e as pessoas achavam que estudar português ou ciências humanas era coisa para alunos que não tinham capacidade para serem engenheiros ou médicos. Só que as ciências humanas são, de forma geral, muito mais complexas que as ditas “exatas” pela sua imprevisibilidade, a impossibilidade de testa-las em laboratório. Os governos militares elegeram os economistas como os mais importantes especialistas da área de humanas porque, em tese, eles poderiam medir suas metas e resultados e, assim, fingiam ter algum controle sobre o imponderável. E deu no que deu (hiperinflação, aumento da concentração de renda etc.).

Mais recentemente, a sociologia virou moda e foi eleita como ferramenta para impressionar os outros e justificar qualquer coisa. Com a redemocratização do País, a análise social começou a avançar – timidamente de início. Um jornal colocou um sociólogo como colunista. Esse escrevia em “sociologuês”, que quase ninguém entendia, mas acredita-se que ele fazia análises profundas da realidade social do País. Na verdade, não passava de uma verborragia sem sentido, mas que impressionava. Aos poucos, a sociedade brasileira começou a debater realmente temas sociais, mas ainda tem o jargão sociológico, que a maioria das pessoas usa, sem entender (assim como uma série de termos importados do inglês, do “economês”, do “juridiquês”…). Parece que pensam que o “sociologuês” dá uma aura de inteligência e superiodade a quem o utiliza. É aí que nasce o “samba do sociólogo doido”, com proposições ainda mais lamentáveis.

Ao longo de toda a existência da humanidade, observamos doidos que usam conceitos para justificar atos insanos. O doido de Oslo não é o primeiro nem será o último. Mas o bom senso parece ser artigo cada vez mais raro  no mundo moderno.

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Comentários em: "O Samba do Sociólogo Doido" (1)

  1. Espero que este solicólogo aqui não lance mão destes recursos fraudulentos que vc muito bem exemplificou.
    Suas observações são muito interessantes.

    Um Abraço

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