o que nem sempre é dito, mas deveria ser

No final dos anos 70, quando eu ainda passava por uma adolescência tardia, fui morar na fervilhante Londres de então. Lá, conheci gente do mundo todo, inclusive uma francesa, estudante de espanhol, que se tornou minha melhor amiga e com quem vim a dividir o aluguel. Conversavamos normalmente em inglês, mas gostávamos de falar em francês ou espanhol quando queríamos que ninguém mais entendesse o que conversavamos. Um dia, ao sair, deixei um bilhete para ela, em português. Quando voltei, ela estava maravilhada por ter compreendido o que estava escrito. “Agora sei que podemos conversar em quatro línguas e, assim, podemos nos entender melhor”, disse ela.

Florence (era esse o seu nome) estava certa. Com o tempo, percebemos que cada idioma tinha uma característica específica: o inglês prima pela objetividade; o francês, pela sonoridade; e as línguas ibéricas são mais adequadas à expressão de sentimentos. Ao contrário da ideia que tenta nos passar o mito da Torre de Babel, o importante não é falar em uma só língua em que ninguém se entende, mas abrir a mente para compreender os outros em sua totalidade, o que inclui o respeito aos demais idiomas e dialetos do mundo. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) adotou o 21 de fevereiro como o Dia Internacional dos Idiomas Maternos. Mas, infelizmente, a própria ONU reconhece que muitas línguas estão desaparecendo no mundo.

Hoje, por questões de trabalho, entrevistei um galego nacionalista. Aliás, minha primeira informação sobre a Galícia veio da minha amiga Florence (por onde andará ela?). Em compras no bairro, descobrimos que a dona da loja era da Galícia, local do qual eu nunca tinha ouvido falar. Florence me disse que era uma região que ficava na fronteira entre Portugal e Espanha e que falava um dialeto que era uma mistura das duas línguas. Mas só com essa entrevista é que vim a saber que a região é o berço do idioma português.

Meu entrevistado me informou que Portugal inicialmente era um condado galego e que se separou posteriormente da Galícia. Atualmente, o território galego é controlada pela Espanha (da mesma forma que o País Basco). Para sufocar o separatismo, o governo de Madri reprimiu o dialeto local, uma espécie de português arcaico, por vários meios. Em outras épocas, o galego foi simplesmente proibido e seus falantes eram perseguidos. Hoje, o castelhano é obrigatório em escolas, órgãos públicos e outros locais e único meio para obter algum tipo de progresso social. Com isso, o galego ganhou um sotaque espanholado e ficou relegado à sombra. Por isso, muitos galegos acreditam que a independência seria uma solução para que possam preservar sua identidade cultural.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: