o que nem sempre é dito, mas deveria ser

                Antigamente, praticamente todo prédio em São Paulo tinha porta e elevador de serviço, pois a criadagem não deveria circular pelos locais onde poderia encontrar os patrões. Creio que isso terminou faz tempo, quando comecei a ver nos elevadores cartazes dizendo que de acordo com determinada lei (da qual não me lembro o número), é proibida discriminação de qualquer tipo. Mas parece que o governo paulista ainda não se deu conta disso.

Há alguns dias, fiquei sabendo que há um projeto de se implantar um sistema de duas portas no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo. Uma das portas seria dedicada a pacientes de planos de saúde, que devem representar 12% do total de atendimentos. A outra, fica para o resto (também chamado de ralé). Há vários problemas importantes aí. O principal é a apropriação privada de recursos públicos, pois neste caso parte das verbas do Estado (ou seja, de todo o povo) está sendo reservada para atender uma parcela da população mais privilegiada.

Mas isso não acontece só no HC. Há alguns anos, ao fazer uma matéria sobre um determinado setor, a respectiva entidade de classe me apresentou um estudo feito por um afamado instituto de pesquisa paulista. Tentei entrar em contato com a pesquisadora responsável para maiores esclarecimentos. A resposta que recebi foi estarrecedora: a pesquisa era da entidade de classe e ela não teria nada a falar sobre o assunto, só a entidade. Em resumo: o Estado mantém um instituto de pesquisas e paga pesquisadores com verbas públicas, mas esse instituto atua como uma consultoria qualquer e vende seu trabalho a uma entidade privada.

Aliás, esse esquema de venda de trabalho à iniciativa privada vem avançando muito nas universidades estaduais de São Paulo. É a maneira que o governo encontrou de se eximir da responsabilidade pelo financiamento das universidades públicas, e de docentes acharem uma forma de complementar sua renda. Os problemas que isso gera são inúmeros: docentes de certas áreas são mais agraciados do que os de outras com as verbas de empresas, o orçamento privado direciona a pesquisa e muitas vezes também pode distorcer seus resultados, o Estado deixa de investir no ensino e pesquisa… É como se houvesse uma porta nas instituições de pesquisa exclusiva para quem paga e uma segunda, para todos, que parece ser a porta dos fundos.

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