o que nem sempre é dito, mas deveria ser

              Certa vez, uma professora entrou na sala de uma classe de nível médio no início do ano. Perguntou aos alunos o que sabiam sobre a história do Brasil. Por exemplo, por que foi que trouxeram os negros para cá? “Porque os índios eram preguiçosos e não queriam trabalhar”, disseram alguns alunos.

“Vocês acham que o índio era burro e ia ficar contente de trabalhar como escravo? O que acontece é que o índio conhecia muito bem a mata e os portugueses não tinham condições de ir atrás dele. Por isso, foram até a África, onde capturaram negros e os trouxeram para cá. Assim, eles não tinham para onde fugir já que não poderiam voltar para casa nadando”, disse a professora, explicando que iam estudar esse tipo de assunto naquele ano. “Quer dizer que agora vamos ver todas as mentiras que contaram para nós no primeiro ano de escola?”, perguntou um aluno, animado com a perspectiva de descobrir coisas novas.

Passaram-se 511 anos desde que os portugueses aportaram nessas terras, bem menos tempo que a aula em questão, que aconteceu há pouco mais de 25 anos. Fato é que até hoje muita gente acredita em uma série de mentiras – como a de que os índios são preguiçosos – que foram contadas em salas de aula. Muitas delas, inclusive, eram impressas em livros escolares que eram considerados respeitáveis.

Há algumas décadas, a discussão sobre como se faz história anima certos círculos intelectuais. Polêmicas à parte, um dos bons frutos que surgiu dessa discussão na América Latina foi a chamada “história dos vencidos”, que consiste na reconstrução dos fatos sob a ótica dos povos pré-colombianos. O mito dos europeus que levavam civilização a povos “ignorantes” caiu por terra. “Descobriu-se” que havia civilizações extremamente sofisticadas e avançadas na América de então (como incas, maias, aztecas…), mas foram dizimadas pelos europeus que queriam se apossar de suas terras. Muito disso deve-se a documentos antigos, lidos e reinterpretados séculos depois.

O sigilo eterno de documentos governamentais, como alguns políticos querem impor, nada mais é que o sonho delirante de aprendizes de Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, que afirmou que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. É apenas mais uma tentativa de escrever a história do seu jeito particular, como se houvesse uma máquina do tempo capaz de mudar o que aconteceu. Versões assim duram cada vez menos tempo. Não ficarão nem por 50 anos, período de sigilo determinado pela proposta que foi aprovada na Câmara.

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