o que nem sempre é dito, mas deveria ser

              Desde pequena, ouço que meninas não podem fazer certas coisas, como jogar futebol (sim, sou antiga mesmo, na minha infância, menina não jogava futebol) ou estudar engenharia. Também ouvia que a solução para a minha vida seria arrumar um marido, para me sustentar. Havia uma constante agressão, dissimulada, contra as mulheres para convencê-las de que elas eram incapazes de viver por si próprias, que a única alternativa que uma mulher teria era a de viver pendurada em um homem (a quem chamaria de marido). Na esteira disso, vinha uma série de outras agressões que faziam (e ainda fazem) parte da vida familiar de qualquer mulher.

É comum, por exemplo, conferir adjetivos depreciativos a uma mulher se ela rejeita um pretendente, ou se ela o aceita. A diferença está apenas em quem a chama de vadia: se o pai, o pretendente rejeitado ou algum(a) colega invejoso(a). Mas demorou muito tempo na minha vida para eu descobrir que o motivo de uma agressão verbal desse tipo não está relacionado ao comportamento da agredida, mas sim ao simples fato de ela ser mulher.

Minha observação (não científica, mas normalmente muito aguçada) conclui que em culturas latinas, como a brasileira, as agressões são mais constantes e mais dissumuladas, a ponto de muitas vezes chegar a convencer suas vítimas de que elas são culpadas. Culpadas de que? De terem nascido mulheres.

Querem exemplos? Se um vídeo picante vaza na internet, a mulher é vadia e o homem é garanhão. Se um casal procura emprego, o marido será visto com simpatia como o provedor da casa que precisa de um trabalho enquanto a mulher receberá críticas veladas – por ocupar uma vaga que poderia ser de um chefe de família, por roubar tempo dos filhos, por ter preocupações domésticas na cabeça durante o expediente… Se uma mulher é atacada sexualmente, o agressor é homem e, diz-se, isso faz parte de sua natureza,; quanto a ela, é culpada por ter provocado… Apenas por ser mulher. Sim, o que está por trás é que a culpa dela está no fato de ser mulher!

Chega-se ao ponto de uma certa celebridade nacional (temos uma ampla galeria de celebridades idiotas no Brasil) ter dito recentemente, como se fosse a coisa mais normal do mundo, que se uma mulher feia fosse estuprada, deveria agradecer a seu estuprador! Aliás, se fossemos fazer uma compilação de todas asneiras que correm por aí – quem não se lembra da célebre, e infeliz frase, “estupra, mas não mata”, dita por Paulo Maluf? – teríamos de abrir vários volumes com muitas páginas.

Bom, apesar de acreditar que a idiotice é uma coisa mais presente em qualquer época do que as mentes brilhantes, acho que está na hora de mudar isso tudo. É por isso que vou à Marcha das Vadias no próximo sábado.

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Comentários em: "Por que vou à Marcha das Vadias" (3)

  1. Marco Túlio Peixoto disse:

    Acho uma discussão necessária e dificil. Gostaria de contribuir.
    Marco Túlio Nicolato

    A atração, o sensual e o respeito

    A sociedade ocidental cartesiana, positivista, tem muita dificuldade quando o assunto ou o conceito não pode ser apenas divido entre certo/errado, preto ou branco ou masculino e feminino. Ou é uma coisa ou é outra, assim discute ela. Ou é positivo ou é negativo. Ou quer ou não quer. Ou é dia ou é noite. Ou é claro ou é escuro. O sol da meia noite, a penumbra, o sim e não, não cabem em uma concepção de vida linear, exclusivista e noosologista (classificadora) como é nossa sociedade e nossa ciência. Os orientais deste os primórdios já dividiam a energia em dois pólos (Yin e Yam), mas diziam que dentro da Yin existia o Yan e dentro do Yan existia o Yin.
    Quando tentamos definir ou um ou outro perdemos a compreensão da totalidade e pior, começamos a criar intolerância e ignorância, sendo um subproduto do outro.
    Quando vamos discutir sexualidade essa limitação e dualidade maniqueísta, se tornam ainda mais limitadores e criadores de intolerancia.
    Mas quando vamos discutir a sensualidade essa situação se torna ainda mais critica, produzindo antagonismos e preconceitos.
    Quando um policial sugere que a mulher sensual agredida é a “culpada”pela violência e pela falta mínima de respeito ao individuo em sua liberdade, vai para um canto de ringue em sua percepção absurda causada por sua visão obtusa.
    Mas quando as mulheres indignadas, com justa razão, vão para o outro canto do ringue e negam que a sensualidade transmite mensagens e provocações que trazem para o macho sua ancestralidade animal, também não contribuem para a discussão de que, apesar de conter algo erótico atrativo e instintivo, não pode nos transformar em animais.
    Onde estão as fronteiras?
    Onde alguém pode ou não pode ultrapassar?
    Se negamos que existe atração, provocação, erotismo e sensualidade no vestir, no andar, no maquiar no olhar da mulher e do homem, como vamos então discutir os limites e o respeito e a integridade do outro?
    Os limites são muito tênues e permeáveis e sem uma sinceridade profunda, madura e responsável, vamos lançar esse assunto ao embate ridículo dos extremos, onde um lado desconsidera o outro e empobrece uma visão ampla e multifacetada desse assunto, nós afastando da verdade e de soluções justas e pluralistas.
    Sim, uma roupa é provocante, insinuante e convidativa para os machos e isso acontece em todas as espécies.
    Não, não pode considerar essa provocação um convite a violação!
    Mas talvez, talvez, precisemos repensar sim se podemos em todo lugar ou em determinadas situações, exibir certos códigos provocativos.
    Ou agora vamos negar que existe um jogo de provocação e sensualidade que desperta os instintos mais básicos em qualquer espécie e também?
    É essa negativa e falácia de tratarmos o assunto como se não existisse vários componentes, que leva algumas pessoas a perder a percepção do que esta provocando no outro e acaba autorizando, dentro da percepção errada de alguns, a invadir as fronteiras da integridade. Não podemos também trazer essa percepção acoplada ao moralismo e o julgamento machista da sociedade masculina.
    O enriquecimento do debate tem que passar pelo reconhecimento dos elementos envolvidos, sem julgamentos, e a nomeação, apenas nomeação de comportamentos, reações e sensações.
    Negar os códigos sensuais, acaba servindo a aqueles que querem usa-lo para justificar e autorizar e dar vazão instintos básicos, uma vez nega-los, também afasta da verdade. Essa é uma discussão profunda e ancestral, que quando cai para o antagonismo e para a emocionalidade não traz esclarecimento e maturação, mas embates e mais preconceitos, mesmo quando revestidos de estofamento jurídico.

  2. O amigo acima escreve muito bonito, mas isso é mais do mesmo. Este é o discurso do policial canadense agora carregado de floreios… “ancestralidade animal”???

    Até os animais ditos irracionais detém seus impulsos ante uma situação para ele inadequada. Quero ver macho de qualquer espécie não ser capaz de guardar seus impulsos quando a fêmea está acompanha de outro macho, por exemplo.

    Mulheres também tem desejos sexuais tão fortes como podem ser os do homem e não saem por aí atacando ninguém, nem homens e tampouco outras mulheres (se fosse uma questão de força física….). Do mesmo modo, homens homossexuais, que certamente possuem aquela mesma “ancestralidade animal” – afinal são machos – também não saem por aí atacando outros (mesmo quando há evidente superioridade física entre eles…) Não é nem um pouco comum termos notícias desse tipo quando na convivência habitual dentro da sociedade.

    Estupradores, machistas opressores e mulheres machistas são covardes, apenas isso!

  3. ana maria rosa ferreira disse:

    Os dois comentários são sensatos e inteligentes! subscrevo totalmente. Apenas quero colocar algo. Estamos vivendo uma era como se aqui fosse a Escandinávia. Como eles não tem problemas sérios de segurança, saúde, educação , governos corruptos e incompetentes, fazem protestos e abraçam um sem números de causas(a maioria estrangeiras). Pessoal. ! estamos no Brasil! todos os nossos problemas permanecem os mesmo há séculos. Só tomaram uma roupagem diferente. Eu lá estou preocupada que me considerem vadia? ando da forma que gosto e faço o que gosto sem ferir ninguém. Tenho minha liberdade sexual e uso de maneira responsável. Já fiz “merdas” e paguei por elas.
    Queridas companheiras(parede coisa do PT, não é!) vamos viver a nossa vida. a liberdade não é ser obrigada a fazer. È fazer ou deixar de fazer quando quer e entende. Penso sempre. Se um homem está em cima de mim “achando que está comendo um vadia”, azar dele. Eu estou tendo prazer, não quero saber o que ele e os outros pensam. Essas marchas são modismo passageiros. Foi como a “queima de soutien” na década de 60! Abs. Ana Rosa

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