o que nem sempre é dito, mas deveria ser

                “São Paulo é uma terra engraçada. As pessoas falam numa língua e escrevem noutra”, dizia há quase um século Macunaíma em sua famosa “carta pras icamiambas”. Até hoje, o conflito entre a norma culta e a linguagem popular gera polêmicas. Mário de Andrade, autor de Macunaíma, era um transgressor da norma culta, que ele dominava com maestria. Mas o que dizer da maioria dos brasileiros?

                O recente episódio do livro distribuído pelo MEC que aceita como correta a expressão “nós vai” trouxe à tona uma polêmica que escamoteia um caráter político. Quem não segue a norma culta da língua é taxado de ignorante. Como tal, tem suas opiniões e demandas menosprezadas.

                Mas, além de promover uma identidade e inclusão em determinados grupos que detêm o poder de decisão, o idioma pode ser uma arma muito afiada. Os irlandeses costumam dizer que a ocupação de seu país durante oito séculos pelos ingleses foi dura, mas também lhes deu a sua melhor arma: o idioma. Escritores irlandeses alvejavam os invasores com palavras. O resultado foi que talvez a melhor parte da literatura de língua inglesa é de autoria de irlandeses como Oscar Wilde, Jonatham Swift, Bernard Shaw e James Joice.

                O problema não é se “nós vai” ou “nós vamos”, mas se vamos ter condições de ir além de uma meia dúzia de frases feitas.

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