o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Como qualquer pessoa bem informada, fiquei boquiaberta com a prisão do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan. De início, aquela vontade incontrolável de fazer piadinhas infames com o ocorrido, do tipo: “com um cara desses à frente do FMI, não admira que a economia mundial esteja tão f..dida.” Mas, passado esse primeiro impuslo, acho que vale a pena analisar esse fato com um pouco mais de cuidado.

Não sei o que aconteceu no caso. Há gente que já levantou a bandeira da teoria da conspiração, dizendo que Strauss-Khan pode ter sido vítima de uma armação para tirá-lo da disputa presidencial francesa. Pode até ser, mas acho que a possibilidade de ter ocorrido um evento real de estupro é bem mais forte do que a de armação, até porque a polícia novaiorquina não é tão ingênua assim a ponto de tirar um dos homens mais poderosos do mundo de um avião por causa de um simples conto da carochinha.

Essa história me lembra do caso do abominável Pimenta das Neves – que há alguns anos assassinou a ex-namorada Sandra Gomide e até hoje anda livre por aí –, um escândalo que ganhou proporções gigantescas por um fato em especial: àquela época, Pimenta comandava um dos mais importantes jornais do País, O Estado de S.Paulo, também chamado de Estadão.

Conheci Sandra Gomide. Não tive o desprazer de conhecer Pimenta, mas tenho contato com muita gente que o conhece. Como o descrevem? Bom, naquela época do Estadão, contavam, ele tinha um harém de “namoradas”, todas alçadas à condição de editoras da casa. Sandra Gomide, segundo me disseram, era a titular. Gente que dizia ser inadimissível esse critério sexual para escolher promoções costumava ser alvo do desdém de seus interlocutores, que respondiam: “Mas ele é o chefe.”

Por que recupero essa história? Para dizer que se costuma ignorar o potencial de estrago que homens poderosos podem fazer a instituições sob seu comando. Só depois do assassinato de Sandra Gomide é que as pessoas passaram a comentar abertamente, até em tom de piada, traços doentios da personalidade de Pimenta.

Provavelmente esse não foi o primeiro evento desse tipo que envolve o diretor-gerente do FMI, mas suas vítimas ficaram constrangidas e acabaram por não denunciá-lo. O que está por trás é a mesma concepção idiota (não há termo mais adequado aqui) de que “mulher feia deveria agradecer por ser estrupada”,  segundo afirmou recentemente um pretenso humorista tupiniquim.

Com a denúncia em Nova York, já apareceu uma nova denúncia na França de violência sexual por parte do chefão do FMI, uma espécie de xerife da economia mundial. A instituição já é muito criticada por alguns por defender uma política econômica que contempla determinados grupos (principalmente banqueiros) em detrimento de outros. Que credibilidade terá agora para conduzir a economia mundial? Essa história ainda terá muitos desdobramentos, mas certamente as mulheres deixaram de se sentirem intimidadas ao denunciar a violência sexual e também agora começam a ser levadas a sério quando tomam essa atitude.

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Comentários em: "Conduta de Strauss-Khan violenta credibilidade do FMI" (2)

  1. Não acredito que Strauss-Kahn seja culpado. Assim como não acredito que Julian Assange seja culpado.

    Tá na cara que é um golpe dos EUA em conluio com Sarkozy para tirar Strauss-Kahn do páreo.

    • Olha, eu não sei o que houve, mas acho que logo saberemos quando terminarem as investigações. Eu, pessoalmente, acredito que ele tem culpa no cartório, mas isso é um palpite. Eu não tenho elementos ainda para concluir que ele é culpado e, assim, posso rever a minha posição.

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