o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Essa história do louco que disparou contra as crianças no RJ mexeu com todo mundo. Para mim, trouxe de volta à baila um debate que tive com um grupo de amigos em 2005, por ocasião do referendo sobre o desarmamento. Na época, a proposta do desarmamento começou bem, mas o pessoal contrário fez barulho e acabou convencendo muita gente de que isso iria contra o “direito” de as pessoas se defenderem. Por isso, o Brasil não aprovou a proposta que faria com que a posse de armas de fogo ficaria restrita a policiais e a um número muito restrito de pessoas, que teriam preparo para usa-las.

Entre meus amigos, o pessoal contra o desarmamento começou a fazer barulho. Chegou o ponto em que não pude mais ignorar as provocações e mandei o texto abaixo, que adaptei porque cita alguns acontecimentos daqueles dias que as pessoas provavelmente não lembram mais. Só então, muita gente que também era a favor do desarmamento, como eu, saiu da moita e colocou sua posição. De qualquer modo, como o assunto é oportuno e parece que está previsto um novo referendo, achei que vale a pena compartilhar minhas preocupações com o restante do mundo.

“Pessoal,

Nunca pensei que a questão das armas pudesse ser tão polêmica e deixasse tantas mentes em estado de beligerância verbal. Mas, ao observar os argumentos acalorados que andam correndo por aí, resolvi colocar meu ponto de vista.

Sou contra a permissão do comércio de armas e munições por inúmeras razões. Muitas destas razões vocês já escutaram por aí. Há a questão do respeito ao princípio da vida, a necessidade de desarmar a sociedade…

E também conheço vários casos concretos do poder destruidor das armas. Há cerca de quinze anos, soube que a irmã de uma amiga minha, grávida de dois meses, havia sido morta por uma arma de fogo em casa. A versão do marido é que os dois discutiam por uma bobagem qualquer enquanto ele limpava sua arma. No calor da discussão, ela teria dito (segundo ele) que iria matá-lo. “Então mata” respondeu, jogando a arma, que disparou ”acidentalmente”, para que ela a pegasse. Pode até ter acontecido isso, mas a única pessoa que poderia confirmar ou contradizer essa versão não sobreviveu.

Como jornalista, tenho a oportunidade de garimpar histórias de todo o tipo. Recentemente entrevistei o Masatako Ota, o pai do menino Yves Ota. Para quem não se lembra, o garoto de oito anos foi sequestrado e morto por PMs que faziam a segurança das lojas do pai dele, o Masatako. A partir daí, ele fundou uma ong que luta para incutir o espírito de paz nas pessoas. Ao entrevista-lo, ele contou que chegou no prédio onde seria realizado o julgamento dos PMs e não foi sequer revistado, ou seja, poderia entrar lá portando uma arma que ninguém perceberia. Na sessão, ele ouviu o advogado dos PMs dizer que seus clientes eram inocentes (mesmo quando já havia provas irrefutáveis do contrário) e que ele iria provar isto. Masatako contou-me que havia comprado uma arma antes, “de bobeira”, mas nunca a usou. Se estivesse com a arma naquele momento, teria fuzilado os PMs e o advogado. “Se fizesse isto, eu acabaria com a minha vida e a de minha família”, disse-me.

Minha experiência de vida me mostrou que o problema não é a arma, mas as pessoas. E as pessoas não estão preparadas para isso. Outra matéria recente que fiz foi sobre um programa de trânsito que pretende zerar o número de mortes na Suécia. “As pessoas sempre fazem coisas estúpidas, mas nós dividimos a responsabilidade pela segurança com elas”, disse-me o responsável pelo programa ao explicar as medidas que o governo sueco tomou neste sentido.

Ontem mesmo a TV mostrou um vídeo gravado pelas câmaras da uma estação do metrô que mostra um sujeito com disparando uma arma apontada para a rua. Ele acabou fuzilando o um torcedor do time rival. Na delegacia, seu advogado disse que ele tinha apenas um celular nas mãos.

Frequentemente vejo gente andando na rua que acha que se um outro pedestre se aproxima está tentando assaltá-lo. Já pensaram se este tipo de gente anda armado? Vai fuzilar todos que estiverem a menos de quinze metros de distância na mesma calçada! Ou, o mais provável, é que ele tenha a arma, mas tenha medo de usá-la.Vai se ferir quando pegar a arma ou deixar que um bandido a leve.

Mas acho que o principal argumento que eu teria e que não está sendo veiculado por aí é que precisamos encontrar uma forma melhor de viver. Já estamos no século XXI e não podemos, nem devemos, manter esta cabeça de século XIX pensando que estamos no Faroeste, vivendo em um enredo de filme de bang bang. É ridículo achar que se o outro está armado, também devemos andar assim. E muito mais idiota é o argumento de que se trata de um direito. Aliás, é esse o argumento que a indústria de armas dos Estados Unidos usa para impedir a proibição da posse de armas lá. Alegam que fere princípios constitucionais, como se os adolescentes desajustados que, vira e mexe naquele país, saem atirando nos professores e colegas estivessem exercendo um direito.

Lutamos muito para construir uma sociedade democrática neste país. Sabemos que ela tem falhas. Mas isto não é motivo para retroceder. Devemos, sim, é sanar as falhas. Não é porque existe contrabando de armas que devemos ter armas. Deve-se, sim, combater o contrabando. Não é porque existe um ônus tributário insustentável que devemos sonegar. Devemos reordenar o sistema tributário para torná-lo viável. Precisamos também combater a corrupção policial, a violência desmesurada e tudo o mais. Ou seja, devemos desarmar nossas mãos e nossas mentes e agir de forma responsável, assumindo a responsabilidade pelo rumo de nossas vidas, construindo este futuro e tudo o mais.

Prefiro, apesar de tudo, viver em um lugar que se pareça com a Inglaterra, onde nem os policiais portam armas – só em operações especiais, como o combate ao terrorismo, e mesmo assim, sendo os mais preparados, eles cometem erros estúpidos, como o do caso Jean Charles – e crimes violentos são esporádicos, do que em uma terra como os Estados Unidos, onde tudo é um bangue-bangue e salve-se quem puder! “

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Comentários em: "A loucura das armas" (1)

  1. “O problema não são as armas, mas as pessoas” – falou tudo. É tanta coisa que o ser humano acaba fazendo por impulso… por isso esse monte de casos estranhos de quem tem arma em casa. Muito bom o texto, parabéns!

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