o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Quando eu era bem jovem, um dia estava na casa de uma amiga e acordamos de manhã com o pai dela, comunista, gritando o Louis Althusser havia matado a esposa, conforme revelava o jornal. Para quem não sabe, Althusser foi o “Papa dos marxistas” franceses nos anos 60 e 70. Entrou em depressão (como tantos outros intelectuais destacados da época) e acabou matando a esposa. Na época, eu cursava Ciências Sociais na USP e lembro do comentário – ferino, mas estremamente perspicaz – de uma colega: “É esse pessoal doido que a gente estuda aqui e leva a sério”.

Na época, combatíamos a ditadura e era importante marcar posição. E o que nos ajudava muito a marcar posição era se apegar a algum intelectual de respeito. Vários deles acabaram em suicídio, mas as pessoas continuavam a leva-los a sério. Mas é sobre um desses “intelectuais de respeito” que quero falar. O nome dele é Sigmund Freud.

Creio que todos sabem que Freud foi o “pai da psicanálise”. Várias de suas proposições são tomadas como verdade absoluta até hoje. Mas poucos sabem que ele mesmo se dizia que criou a psicanálise porque era um maníaco compulsivo e, com isso, buscava entender a si mesmo. Desde então, mais de um século se passou e o mundo começou a ver questões ligadas a comportamento sob uma nova ótica: a médica, que aparentava ter um critério “científico”.

Comportamento é algo muito complexo. Segue padrões culturais. Em toda sociedade, alguns padrões de comportamento são valorizados e outros, combatidos. O mesmo padrão de comportamento pode ser valorizado em determinado meio e combatido em outro contexto cultural. Mas a partir da visão do Dr. Freud, passou-se a ver todo comportamento divergente como patológico.

Essa visão por si só é questionável. Na minha geração, muitos adolescentes rebeldes foram internados em manicômios pelos pais e ficaram com sequelas pelo resto da vida. Mas não é só isso. Certa vez, ouvi o relato de um médico de uma empresa em que a pressão sobre os funcionários era grande e havia uma onda de “surtos”. Ele falava em “psicose reativa” ao ambiente. Eu coloquei: “será que não é uma questão política, uma forma de protestar contra a pressão e condições desumanas no trabalho?”

Por isso, sempre desconfio de rótulos psiquiáricos, muitos dos quais servem apenas de justificativas para não se tentar superar situações que são incômodas. Mas o problema hoje é a medicalização da vida. Se a pessoa está irritada, usa-se uma medicação. Deixa-se de viver.

O grave é que isso está atingindo crianças cada vez mais jovens. Há 30 anos, ouvi um comentário chocante, mas que, infelizmente, não pode ser provado: o de que uma escolinha maternal colocava calmante na água das crianças para não ter muito trabalho com elas. Hoje, são os próprios médicos que receitam calmantes e drogas diversas. Se você está triste, tome um antidepressivo. Se você tem pânico, tome o medicamento adequado. Se você tem pouca energia, tome um estimulante.

Há uma indústria farmacêutica que gasta rios de dinheiro para faturar muito mais com a noção de que as pessoas devem viver dopadas. E o pior é que as pessoas levam isso a sério!

 

 

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