o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Tenho observado ao acaso uma coisa que depõe contra o jornalismo de algumas emissoras de TV: a mania de usar material obsoleto sem verificar se ele ainda é válido. Isso não é privilégio de emissoras de TV, pois qualquer empresa jornalística faz isso. Mas por acaso vi reportagens de TV que me chamaram a atenção nisso.

A primeira aconteceu já há alguns anos. Uma emissora comprou um pacote de reportagens para exibir. Isso acontece muito: compra-se um pacote de matérias especiais, que inclui os direitos de impressão, para jornais e revistas, ou de transmissão, para rádio e TV. Normalmente esse material fica a parte do serviço noticioso do dia a dia e é produzido com mais apuro, tem um enfoque aprofundado etc. A empresa compra o pacote e o usa quando quiser.

Aconteceu que eu via ao acaso a TV e um detalhe de uma matéria qualquer me chamou a atenção. A reportagem contava o que se fazia em determinado local e apenas falava on passant que estava dentro do “Avança Brasil”. Para quem não sabe, esse é o nome do ambicioso plano de desenvolvimento do governo FHC, que era constituído por vários projetos de privatizações e incentivos ao desenvolvimento de infraestrutura por meio de concessões à iniciativa privada. Acontece que quando vi essa matéria, já estavamos no segundo mandato de Lula!

A coisa normalmente passaria despercebida pela minha mente. Mas uma única coisa me fez soar o sinal de alerta: em determinado momento da minha vida profissional, eu fazia um noticiário de infraestrutura voltado a investidores estrangeiros e, assim, eu conhecia muito bem o “Avança Brasil”. Por isso, tive a certeza de que a reportagem que estavam exibindo teria sido feita pelo menos cinco anos antes (e talvez fosse até mais antiga).

A outra que me chamou muito a atenção foi veiculada esses dias, no aniversário de São Paulo, 25 de janeiro, em que se falava das características de uma rua como a Augusta, que espelha as múltiplas facetas da cidade, segundo a reportagem. Em determinado momento, mostra um casarão cheio de grafitis para ilustrar o local como um polo cultural etc. Mas omite um pequeno detalhe: aquele casarão tinha sido demolido havia dois meses. Sei disso porque moro por perto e lembro que no dia em que começaram a demolição uma das paredes desabou, o que obrigou a interditar o trânsito local por alguns momentos por motivos de segurança. Aliás, a reportagem parecia ter sido toda produzida no mesmo dia, na véspera mesmo.

Sou repórter e sei das dificuldades de se conseguir informação correta e confiável. Sei também que os melhores profissionais estão sujeitos a erros etc. Mas aqui já é outra história: jornalismo direto do túnel do tempo.

 

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