o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Temos pílulas para tudo. Comeu demais? Tome um laxante. Está ficando velha? Por que não tenta a reposição hormonal? Está deprimido? Que tal uma pílula da felicidade?

É o que acontece com muitos conhecidos meus. Tomam laxantes quando comem demais, hormônios porque se recusam a aceitar a passagem do tempo e antidepressivos quando querem felicidade instântanea e indolor.

E isto é cada vez mais frequente! Mas, quando lembro que vivemos em uma cultura que nos impõe como principal meta na vida a aquisição de bens e de status social, a juventude e o glamour e um corpo que segue padrões rígidos de design, não surpreende que as pessoas estejam cada vez mais deprimidas e ansiosas.

Vivemos num mundo extremamente conturbado. Ligamos a televisão e sabemos de um atentado chocante em algum lugar do mundo. Eventualmente, perguntamos se aquele conhecido que está viajando não foi uma das vítimas. Ouvimos que o vizinho ficou desempregado e está desesperado. No nosso trabalho, as coisas parecem estar de pernas para o ar e tememos pelo nosso futuro. Lemos no jornal que a violência impera, que as perspectivas estão ruins… Parece que é proibido ser simplesmente feliz.

Diante de tudo isso, queremos nos preservar. Buscamos comprar carro apartamento, seguro e tudo o mais que possa nos dar a sensação de proteção contra os infortúnios que podem acontecer. Frequentemente, as pessoas exageram e fazem dívidas além de suas possibilidades em busca desta falsa segurança.

Seguem atrás de um objeto de desejo. Depois vão atrás de outro, e mais outro… Vão passando suas vidas atrás de novas aquisições, desesperadas com a idéia de não conseguirem trocar de carro ou de sofá, e com medo de perderem o que já têm, inclusive prestígio, amigos e poder. Jamais sentem tranquilidade.

A palavra de ordem parece ser a insatisfação, alimentada constantemente por uma superexcitação dos sentidos: provar um novo perfume, um prato exótico, um vinho, uma massagem… Enfim, uma sucessão de coisas novas que nunca permitem que se exercite o contentamento.

O resultado de tudo isso? Uma epidemia de hipocondria. E parece ser contagiosa!

 

 

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Comentários em: "Felicidade em pílulas" (2)

  1. Falou tudo, e com certeza é contagiosa. O mundo em que vivemos hoje tem pressão por todos os lados, parece que nem em casa as pessoas tem mais tranquilidade. Mas eu ainda acho que muito desta sensação de estarmos indo cada vez pior, é pura coisa de nossas cabeças, muito influenciadas pelo que os outros dizem e pelo que ouvimos na tv. Dá pra ser feliz sim, e sem remédios (rs) !

  2. …e aí quando alguém resolve fazer o movimento contrário ( reduzir carga de trabalho, químicas diversas – da alimentação aos remédios – e consumismo fútil) é logo rotulado como “sujeito ultrapassado” ou coisa parecida.

    Quer propaganda mais emblemática do que essa do “VISA ELECTRON”, em que o narrador diz “Dinheiro? Já era! Agora é VISA”. O cartão é a “chave para o paraíso” e as pílulas e comprimidos o bálsamo para a “boa saúde”.

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