o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Clark Kent e seus colegas diziam: “parem as máquinas” quando tinham uma notícia quente. Meu colega Mottinha, mais modesto, dizia “parem os mimeógrafos” quando algo parecia sair do comum. Acredito que hoje em dia, dificilmente ele dirá essa frase. Há muito tempo que se deixou de publicar algo fora do senso comum nos jornais. O problema é que o senso comum nem sempre é digno da consideração que ele recebe.

Vamos analisar alguns chavões que frequentemente lemos nos jornais e revistas brasileiros. “O problema é que o governo aumentou os gastos públicos” é um dos mais frequentes. O que isso significa? Nada. Absolutamente nada. É verdade? Não. Seria como se, na sua casa, o seu filho passasse a estudar em um colégio melhor, e mais caro, e começasse a comprar mais livros, por exemplo. Aí, aumentaram os gastos da sua casa. Isso é algo ruim? De onde veio a história de que “quanto maior o gasto, pior é”? Isso é economia de dono de boteco. E, obviamente, não se administra um Estado com economia de dono de boteco. Investimento social não é algo que deva dar lucro.

Outras manchetes que estampam as capas de jornais nos últimos dias dizem que os gastos com pessoal aumentaram muito no governo Lula. Aliás, vivem repetindo isso quando não lembram de outro assunto já que nada mais para os mimeógrafos, eternamente reproduzindo frases feitas. Antigamente, se dizia que o jornalista falava sobre a mesma coisa tantas vezes que sua máquina de escrever já escrevia sozinha quando ele estava indisposto. Hoje, escreve-se com computadores e o recurso “copia e cola” é o mais utilizado (há quem seja maldoso a ponto de dizer que isso apenas comprova a Lei de Lavoisier, já que nada se cria, tudo se copia).

Mas em relação aos gastos com o funcionalismo, vale lembrar que nas últimas décadas, salvo alguns breves períodos excepcionais, o funcionalismo teve seu salário achatado ao extremo. Chegou ao ponto, por exemplo, de fiscais do Ministério do Trabalho ganharem a fortuna de dois salários mínimos em determinado momento. Eram todos profissionais de nível superior (engenheiros, médicos, advogados…). Lógicamente, não se pode confiar em um profissional que ganha tão pouco para fiscalizar empresas em nome do poder público. O salário do funcionalismo como um todo foi achatado durante o período da ditadura militar, recuperou-se em parte com a democratização, e foi arrochado novamente durante o governo FHC. Carreiras de Estado (como diplomatas, juízes, auditores fiscais e outros) tinham salários aviltados e, com isso, não atraíam bons profissionais. Lula compreendeu que para ter um Estado que funcione é preciso ter bons profissionais e paga-los de forma digna.

E o que acontece com os jornais brasileiros? O inverso. Salários e condições de trabalho cada vez mais aviltados, o que prejudica a sua função de fornecer informações essenciais para a democracia. Em uma dessas reuniões de final de ano, conversando com uma amiga, que não é jornalista, ela disse estranhar que a imprensa mundial hoje elogia o Brasil, inclusive a The Economist, enquanto os jornais aqui só falam mal do governo.

Antigamente, a imprensa tinha como seu negócio principal o fornecimento de informações. Para isso, havia ma equipe grande de repórteres. Fazer jornalismo é algo caro e nos anos 90 muitas redações foram desmontadas com o objetivo de cortar custos enquanto se investia em gráficas de última geração. Lembro que, após sair de uma dessas redações, encontrei um colega em uma festa e ele me disse que tinha havido vários outros cortes desde a minha saída. Chegamos a comentar que a redação ficaria como o “Holandês Voador”, o lendário navio fantasma condenado a vagar eternamente pelos mares, sem tripulação, apenas com mimeógrafos de última geração.

Creio que os grandes jornais paulistas hoje contam com metade, ou menos, do número de profissionais que trabalham em suas redações no início dos anos 80. O resultado é que todos publicam exatamente a mesma coisa, material de agências de notícias, trabalho pasteurizado. Muita gente assinava mais de um jornal naquela época, mas agora só lê um (já que equivale a ler todos), ou mesmo nenhum.

Os jornais perderam leitores e o foco da imprensa hoje está na publicidade. As empresas jornalísticas não vendem mais notícia para o leitor. O que fazem é vender leitores para os anunciantes. Por isso, temos várias publicações entregues sem custo para o leitor e os mimeógrafos rodando incenssantemente folhas pintadas com tinta, mas sem conteúdo. Fico pensando se não está na hora de parar os mimeógrafos, definitivamente.

PS: para quem não sabe, mimeógrafo é um tipo de impressora jurássica, movida a manivela, que costumava ser usada por professores para reproduzir material (apostilas e provas) a ser distribuído para seus alunos

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Comentários em: "Parem os mimeógrafos" (4)

  1. Oi, Silvia,
    artigo muito bom.
    Mimeógrafos à parte, a nossa imprensa está mesmo muito ruim na sua função de noticiar. Acho que ela descobriu que a sua vocação é funcionar como um partido político.
    Bj.
    Motta

  2. Acredita que entendi o que v/c escreveu parabens!
    Bjs.!

  3. Sílvia, essa pasteurização é real e deprimente. É o “copia e cola” editado ,salvo alguns ombudsmans e colunistas brasileiros que escracham ou aliviam os algozes ou pupilos de seus patrões e/ou patrocinadores.
    Outra. Eu duvido que tenha algum jornalista com menos de 5 anos de carreira no interior do país que ganhe acima de dois salários mínimos e meio. Duvido !
    Esses jornais menores estão a serviço de caciques políticos ou da máquina pública nesses municípios. Não existe jornalismo independente nesses mesmos.
    Nas capitais , uma situação diferente. Os anunciantes em primeiro lugar.
    Ah! O leitor ?
    Hum! Que engula essas letras sem os odores alcoólicos de seus mimeógrafos modernos.

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