o que nem sempre é dito, mas deveria ser

whistleblowers

Um dos aspectos mais importantes, mas que está passando batido, no caso doWikileaks é o dos whistleblowers, uma palavra que não tem equivalente em português, mas cuja melhor tradução seria “apitadores”. O que faz alguém que apita? Chama a atenção para algo. É como o guardinha que faz a ronda na rua. Ou como grupos de mulheres no Nordeste que se organizam para apitar coletivamente quando suspeitam que uma de suas vizinhas está sendo agredida pelo marido ou companheiro. Elas apitam para denunciar algo errado que acontece e, desta forma, constranger o malfeitor.

O que isso tem a ver com o Wikileaks? Bom, Julian Assange diz, muito apropriadamente, que ele nada faz além de publicar denúncias de whistlebowers, de gente que trabalha em um lugar e denuncia ao ver coisa errada. Isso já aconteceu inúmeras vezes na história. Apenas como um exemplo que chegou até o nosso conhecimento está o caso de Erin Brockovich, interpretada no cinema por Julia Roberts, que conseguiu denunciar a companhia Pacific Gas & Electric. Por mais de 30 anos, a empresa contaminou a água de uma pequena cidade californiana, envenenando seus moradores. O feito, que constitui a maior ação de indenização da história dos Estados Unidos (US$ 333 milhões), foi possível graças a um whistleblower, um funcionário, inconformado com a falta de ética da empresa, que vazou documentos sigilosos. O envenenamento de mais de 600 pessoas e a atitude criminosa da empresa, que sabia que estava prejudicando a saúde dessa população, pôde ser comprovado por esses documentos.

Casos como esse estão em toda a parte. Aqui no Brasil frequentemente temos episódios como lixões químicos em áreas residenciais, vazamentos de óleo ou de produtos perigosos (lembram do caso da Vila Socó, uma favela construída em cima de um oleoduto da Petrobrás em Cubatão e que foi incinerada em 1984 quando um cano estourou e vazou gasolina?), empreendimentos imobiliários em áreas de preservação ambiental, empresas que insistem em enganar seus clientes… Só que normalmente eles não são denunciados por whistleblowers. São os prejudicados que costumam denunciar, mas dificilmente conseguem o devido destaque na imprensa.

Um dos poucos casos de whistleblower que me lembro no Brasil é o da Operação Uruguai, em que o motorista Eriberto França e a secretária Sandra de Oliveira desmascararam o esquema imoral que sustentava o então presidente Fernando Collor. Ao ser questionado no Congresso sobre a motivação de suas ações, Eriberto disse que era “patriotismo”, o que arrancou uma sonora gargalhada da platéia. Sou seja, não acreditavam que uma pessoa pudesse ser movida a denunciar uma situação errada simplesmente por conta de sua indignação com o fato. Todas os fatos narrados por Eriberto puderam ser comprovados depois, o que resultou no impeachment de Collor, há quase 20 anos. O motorista herói do povo brasileiro perdeu o emprego e acabou sendo contratado depois pela revista que primeiro publicou as denúncias. Nunca mais soube dele.

Onde quero chegar com essas “divagações”? Bom, o ponto é que os brasileiros se acostumaram a achar que o mundo é errado e que não há forma de consertá-lo. Nunca denunciam nada e, por isso, foram surgindo por aqui coisas ainda mais erradas, como o domínio do tráfico nos morros cariocas, por exemplo.

Os últimos acontecimentos parecem indicar que é possivel mudar o mundo, mas para isso é preciso sair da chamada “zona de conforto” e ir à luta.É precisa apitar.

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Comentários em: "whistleblowers" (2)

  1. ANA duarte disse:

    Parabens pelo seu texto. Pois então nos no Twitter seriamos uma especie de !apitaço! E deveriamos saber usar isso, para chamar atenção, pra tudo que vemos de errado.

    • Concordo com você, mas apenas em parte. Não basta ficar fazendo barulho. É preciso algumas outras atitudes para realmente mudar a situação.

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