o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Um dos melhores livros que já li de ciência política é “O Sistema Totalitário”, de Hana Arent. Ela se propõe a explicar a emergência do nazismo, que teve ampla sustentação popular. O livro é fantástico. Basicamente, Arent diz que, ao contrário do que se acreditava, a democracia moderna, em que são eleitos representantes, não contempla os anseios populares. Assim, segmentos mais marginalizados da sociedade (o lumpen para os alemães, ou a ralé) acabam excluídos das decisões. Ela acredita que foi isso que permitiu que figuras que chegam quebrando todas as regras da democracia, como Hitler fez, tivessem amplo respaldo popular já que o populacho sentia-se alijado do jogo político tradicional.

Mas o que vemos no Brasil parece ser o inverso. Nos últimos anos, inúmeros mecanismos garantiram expressão aos miseráveis e hoje eles participam como nunca das decisões políticas que influem em sua vida. Mas observamos uma resistência a essa participação por parte das elites que atinge um nível espantoso. Há dois casos que me chamam particularmente a atenção.

O primeiro é o que todos conhecem. Um promotor público pede avaliação de leitura e ditado do palhaço Tiririca porque, alega, “ele é analfabeto funcional”. Bom, os critérios são meio subjetivos, mas pergunto porque ele não pede avaliação a todos os candidatos uma vez que é sabido que a escola está diplomando hordas de analfabetos funcionais? Até acho que seria interessante fazer uma avaliação assim em todos os membros do Congresso (acredito que aí teríamos grandes surpresas).

O que parece claro é que o problema não é a habilidade intelectual de Tiririca, mas sim o fato de que uma massa de miseráveis, por meio de um ex-miserável(ao que me consta, o palhaço hoje é um homem relativamente rico), está ganhando meios de se fazer representar e fazer valer seus interesses. Apesar de parecer provocação, o mote de Tiririca em sua eleição era saber o que fazem os congressistas. Esse mote tem grande apelo popular certamente porque eles praticamente nada fazem em prol da imensa massa de pobres do Brasil.

Outro fato que me chamou a atenção esses dias foi uma entrevista que ouvi no rádio, em que um professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (não lembro quem) comentava a proposta, aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, de emenda à Constituição que permite que a sociedade solicite a realização de referendos e plebiscitos sobre temas de seu interesse. Hoje essa iniciativa é de competência exclusiva do Congresso. O tal professor dizia ser inconcebível isso porque, afirmou, “a democracia moderno é do tipo representativa”, ou seja, se elegem representantes para tomar as decisões, que “são extremamente complexas” e que não devem ser deixadas a cargo de todos porque a maioria das pessoas não tem capacidade para avaliar essas questões.

Para quem não sabe, a Escola de Sociologia e Política é a pioneira no Brasil no ensino das duas matérias e tem também um curso de biblioteconomia, que é bem conceituado. A Sociologia e Política sempre foi conservadora, enquanto a turma da Universidade de São Paulo (USP) era mais de esquerda. Aliás, é bom que se diga que as ciências humanas admitem que o conhecimento sempre está imbuído de algum viés ideológico. A história que vemos nos bancos escolares é a chamada “história dos vencedores”, que não considera o lado dos índios da América ou dos negros da África, mas conta a visão dos colonos europeus que, entre outras asneiras, diz que “índio é preguiçoso e por isso tiveram de trazer negros para trabalhar no Brasil”.

Mas voltando ao comentário do professor da Sociologia e Política, ele cria um engodo de forma premeditada: usa sua qualificação para passar credibilidade a uma afirmação ideológica. Ou seja, usa o fato de ser professor de ciência política para impor a (falsa) impressão de que suas afirmações são absolutamente científicas e mais embasadas do que a dos demais mortais enquanto faz uma afirmação completamente ideológica. Sem entrar em detalhes sobre a tal democracia moderna que tem inúmeras variantes (na Suiça, por exemplo, praticamente todos os assuntos passam por consulta popular e os cidadãos costumam ir às urnas frequentemente), o que ele diz é que a democracia é para todos, mas nem todos são iguais. (Lembra-me a frase “alguns são mais iguais que os outros”, de uma fábula moderna: A Revolução dos Bichos”, escrita por George Orwell).

Em última análise, o que ele diz é que o povo não é qualificado para decidir o que lhe convém, que para isso há gente mais qualificada. Omite que política é um jogo de poder, e não de competência, em que o que vale é o compromisso com propostas. E por que dedicar tanta atenção a isso? Porque esse discurso da pretensa competência está crescendo e muita gente não se dá conta de que esses argumentos são falsos. É preciso denunciar essas mentiras antes que as pessoas começem a acreditar que são verdades.

 

 

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Comentários em: "Os excluídos da democracia" (3)

  1. Mas quem pode dizer com segurança se o Tiririca é um analfabeto ou apenas um letrado é um pedagodo, e não um promotor, que na minha opinião está procurando muito holofote.

    Ou será que só ele não conhecia o Tiririca ANTES do pleito e foi “surpreendido” com a eleição do palhaço?

    Essa história toda de competência e de que as classes populares não tem “qualificação” suficiente para tomar certas decisões me lembra um caso que foi contado por Frei Betto quando estava em uma aula de Paulo Freire em uma comunidade carente deste país.

    Paulo Freire teve a ideia de levar para esta aula alguns profissionais como médicos, advogados e assim começou a falar sobre o trabalho e a capacidade de leitura de mundo, qualificação ,etc. Mas percebeu que o povo, os moradores da região, estavam inibidos com a presença dos “doutores”.

    Fez o seguinte: chamou o médico e este fez uma pequena exposição sobre coração, sangue, artérias…os moradores ficaram mais inibidos, pra baixo mesmo. Depois Freire chamou uma dona de casa para explicar uma coisa simples: como matar, limpar e cozinhar uma galinha. A mulher, um tanto inibida, explicou tudo direitinho.

    Ao final, Freire perguntou ao médico:

    – Doutor, o senhor saberia fazer isso?
    – Não, professor.
    – Se o senhor se perdesse na mata e tivesse que matar e limpar uma galinha pra matar a fome seria difícil, não?
    – Nem saberia por onde começar.
    – Está vendo, dona? O médico precisaria de todo o seu conhecimento para sobreviver em uma situação assim.

    Aí Freire fez com que o povo naquela aula percebesse que cada trabalho, cada conhecimento é importante. Que cada um pode contribuir com o seu trabalho e conhecimento para um país melhor. A formação vem aos poucos, mas o saber, a leitura e o conhecimento de mundo, estão lá.

    É muita arrogância desprezar tudo isso.

    Bj!

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