o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Há alguns anos, recebi um cartão de crédito pelo correio. Para ativa-lo, eu deveria ligar para um determinado número, o que nunca fiz. Era do banco Panamericano, onde eu jamais tinha posto os pés antes. Não sei porque me mandaram o cartão. A única explicação é que, como costuma acontecer, para captar clientes, recorreram a algum banco de dados comprado ilegalmente.

Aliás, a forma como as instituições financeiras operam nesse país é completamente absurda. Bancos, financeiras e administradoras de cartões praticamente impõem a clientes suas condições de forma unilateral. O cartão de crédito, por exemplo, me passa uma determinada taxa por ocasião do contrato, quando eu jamais imagino que algum dia vou ter de empurrar a dívida de um mês para o outro. Quando chega o dia em que preciso fazer isso, a taxa é diferente da original, que foi multiplicada várias vezes. O mesmo vale para o cheque especial e para várias outras coisas.

Esses bancos e administradoras sabem que são muito poucos os que reclamam e levam suas demandas até o fim. Talvez porque não tenham tempo disponível para ir atrás disso, nem dinheiro para contratar um advogado e resolver o caso na Justiça. Acaba sendo mais barato, e menos estressante, pagar o que o banco quer. A sensação que tenho é a de estar sendo extorquida.

Esse é mais um dos motivos pelos quais esse rombo do banco Panamericano me parece tão revoltante. Difícil acreditar que seu dono, Silvio Santos, realmente não tinha conhecimento, como dizem, de um buraco dessa magnitude, uma merreca de R$ 2,5 bilhões. Mas ele agora pegou dinheiro emprestado dos correntistas de outros bancos a taxas realmente camaradas, como as praticadas de pai para filho, com prazo de dez anos. Enquanto ele empresta dinheiro a juros escorchantes para seus clientes, paga quase nada de remuneração ao FGC. É como se houvesse uma bolsa para banqueiros “pobres”, a exemplo do Bolsa Família, a Bolsa Banco.

Pelo que ouvi, o problema com o Panamericano foi de créditos fictícios. Tinham dinheiro emprestado a clientes, mas passaram o direito de receber esses créditos a outros bancos (que logicamente pagaram um pouco menos por isso) sem dar baixa na contabilidade. Um erro como esse poderia acontecer, mas nessa proporção de R$ 2,5 bilhões não pode ser acidental. Aliás, ainda não está explicado como as auditorias, interna e externa, não perceberam nada de errado. Será que temos uma epidemia de créditos fictícios prestes a explodir no sistema financeiro?

Creio que o Banco Central e o banco Panamericano nos devem explicações já que somos nós que estamos pagando essa conta.

 

Em tempo (1/11/2010): muita gente vem dizendo que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que fez o empréstimo para salvar o Banco Panamericano, é uma entidade privada e, portanto, o governo não teve de gastar um centavo com isso.  Mesmo sendo uma entidade de direito privado, a adesão de instituições financeiras ao FGC é compulsória, assim com o contribuição delas para o fundo, que acaba saindo do bolso dos correntistas.

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Comentários em: "Créditos fictícios, dinheiro (o nosso) de verdade" (1)

  1. Será que ele está deixando de ser o Midas?

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