o que nem sempre é dito, mas deveria ser

É dos anos 50 uma publicação que fez história na tentativa de entender o Brasil. Chamava-se “Os dois Brasis”, do francês Jacques Lambert. Ele descrevia o Brasil como um país com tamanha dualidade que poderia ser considerado dois mundos complementamente diferentes convivendo no mesmo espaço: o atrasado e o moderno. O primeiro era pobre, predominantemente rural, sem alfabetização… Coisa que na linguagem moderna seria chamado de tosco. O segundo era cosmopolita, rico, sofisticado…

Essa descrição do Brasil “pegou”. Nas décadas seguintes, falava-se em “Belíndia”, ou seja, um país em que os indicadores sócio-econômicos mostravam uma situação parecida com a Bélgica em alguns pontos e com a Índia em outros. Mas o Brasil que Lambert viu era bem diferente de hoje.

Nos anos 50, a maior parte da população brasileira vivia em áreas rurais e não era alfabetizada. A televisão ainda era uma novidade que poucos conheciam. As metrópoles concentravam elites, as roupas eram feitas sob medida porque ainda não havia uma indústria de confecções…

Muita coisa mudou desde então. Hoje a maior parte da população brasileira vive em cidades, tem televisão, passou pela escola etc. Mas a idéia de que há dois Brasis persiste. Há gente que se vê como elite e se recusa a ter qualquer empatia com os que considera diferentes de si. Gosta de falar difícil, usa termos em inglês (muitas vezes sem sequer saber o que significam), mas mal sabe se expressar em português porque não tem conteúdo. Em suma, são pessoas que não passam de farsantes que, a exemplo do rei nú, querem ser levadas a sério. Esses reizinhos ainda não perceberam que o Brasil na era da TV é um só – com múltiplas facetas, mas bem mais interessantes do que aquele esqueminha do atrasado e do moderno.

O impressionante é que nos últimos dias esses reizinhos nús foram expostos pelo twitter. Menos de uma semana após as eleições, já foram denunciados mais de mil perfis por postagens de conteúdo discriminatório contra nordestinos (que são associados ao que ficou conhecido como o “Brasil atrasado”).

PS: Para quem não conhece, “O Rei Nú” é um dos contos de fadas imortalizado por Has Christian Andersen. Narra a história de um rei que era muito vaidoso e gostava de roupas bonitas. Então, dois espertalhões foram oferecer ao rei a roupa mais magnífica que havia, mas era uma roupa mágica, que só poderia ser vista pelas pessoas inteligentes. A exemplo de clientes de lojas chiques de São Paulo, o rei se dispôs a pagar uma fortuna pela tal roupa e resolveu marcar um dia especial para desfilar com sua roupa pela cidade. O povo não via a tal roupa, mas ninguém queria admitir que talvez não fosse inteligente o suficiente para enxegar algo tão especial até que… De repente, uma criança viu e gritou “O rei está nú”. Imediatamente, todos se puseram a gargalhar.

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Comentários em: "Os Dois Brasis e o Rei Nú" (1)

  1. E o interessante é que essa gente que gosta de se ver como elite e é toda “descolada” morre de medo da ascensão social de fato daqueles considerados “gentinha”, sobretudo nordestinos e negros.

    Porque ocorre certa mudança e equilíbrio em algumas relações. De repente aquele porteiro tem um filho se formando em Direito e ele, o empregado, deixa de ser bobo e quer tudinho ali “no papel” os direitos que lhe negavam antes.

    Como diz Tom Zé: de vez em quando um de nós fica inteligente e se torna perigoso…

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