o que nem sempre é dito, mas deveria ser

Lembro que há quase 30 anos, fiquei espantada ao verificar que um dirigente de estatal mentiu descaradamente ao responder a uma pergunta durante um debate público. Soube por acaso que ele mentia, apenas porque conhecia um funcionário daquela estatal, que me acompanhava no evento. Hoje, verifico com tristeza que a mentira parece ser a coisa mais normal quando se dá uma declaração para a imprensa (que atualmente deixou de verificar a veracidade das afirmações feitas por suas fontes).

Parece que Joseph Groebbles tornou-se um grande guru nesse século XXI, não apenas dos políticos, mas também das celebridades e de pessoas comuns (que aspiram tornarem-se celebridades). Para quem não conhece, Groebbels foi o ministro da Propaganda do governo nazista, que entrou na história por sua frase lapidar: “uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade”.

Mesmo assim, continuo pasma com o cinismo com que muitas mentiras são ditas. Não falo das mentiras folclóricas e divertidas, como a história do aerotrem, por exemplo, uma via férrea elevada que substituiria o metrô e que serviu como proposta política para um candidato a prefeito ou a vereador (não me lembro) que arrancava risos dos espectadores. Falo de mentiras que são tão falsas a ponto de se passarem por verdades, como as várias ditas por José Serra.

Um exemplo é o salário mínimo de Serra. Aqui em São Paulo, o governador tucano instituiu o salário mínimo estadual – uma de suas muitas balelas – que proporcionava um acréscimo de R$ 10, R$ 20 ou R$ 30 sobre o salário mínimo decretado por Lula. Mas, espertamente, os valores mais altos eram dados a categorias fortes, que já tinham conquistado valores ainda maiores nas negociações empreendidas por seus sindicatos. O ponto fundamental é que o salário mínimo de Serra nunca passou de um conto do vigário porque o governo estadual não tem competência para legislar sobre salários, que são de competência exclusiva do governo federal. Ou seja, o salário mínimo estadual nunca deixou de ser uma mentira inventada por Serra.

No debate com Dilma no último domingo, Serra desconversou com relação às privatizações do governo FHC. Como os tucanos pretendiam privatizar estradas e portos, deixaram de investir nisso. Achavam que os gringos trariam dinheiro para investir, depois de comprar as concessões com contratos leoninos para os consumidores (como os contratos de concessão da área de telefonia, por exemplo). Eles também privatizaram muita coisa do setor elétrico, mas não conseguiram levar adiante a venda de toda a área porque a crise de energia na Califórnia deixou à mostra a fragilidade do projeto de desregular o setor e deixa-lo à mercê do grande capital. Serra agora nega seu ímpeto privatizante, se transforma em pai dos pobres, vai melhorar o salário mínimo…

A única novidade nisso tudo é que estou cada vez mais cheia da sensação de que tudo isso é dejá vú.

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