o que nem sempre é dito, mas deveria ser

O Brasil tem muito preconceito, boa parte deles disseminados pelo conteúdo da programação das TVs abertas. O mais frequente é o que atesta que vida de rico é um mar de rosas. Junto com isso, também vem a (falsa) ideia de que há alguns sinais inequívocos de riqueza, a saber: beleza física (principalmente se for um biótipo do tipo loiro de olhos azuis), falar corretamente, jeito de se apresentar etc. E, o mais preocupante, a crença de que se pode (ou deve) arrancar dinheiro de ricos porque esses teriam bufunfa de sobra.

Assim, quando um aparente rico vai ao sapateiro para trocar uma sola, o preço é um. Quando vai alguém com “cara de pobre”, o valor pode cair pela metade. O tratamento diferenciado entre um aparente rico e um pobre declarado se repete em várias coisas, com inúmeras variações. Enquanto o pobre gera uma certa simpatia, o rico provoca um certo desdém público em algumas situações, mas essa reação pode se inverter em outras ocasiões.

Mas viver nesse emaranhado de preconceitos e ideias falsas é muito complicado e desgastante. Deixa-se de lado o foco no que está se fazendo (negociando um produto ou serviço, solicitando um serviço público etc.) e a atenção passa a girar em torno de um punhado de noções vagas e sem qualquer fundamento. Conversando com minha amiga Cris sobre alguns eventos recentes, ela me dá uma receita para lidar com isso: basta fazer “cara de pobre”.

Como se faz cara de pobre? Segundo a Cris, primeiro é preciso falar meio errado, sem usar o plural. Em segundo lugar, é bom fazer cara de tonta(o). Terceiro: mostrar que você não é tonta(o). Quarto: dizer algo como “Ô, moço, arruma um negocinho legal pra mim e que não esfole o que ganho, suo muito pra ganhar esse dinheiro.” Em quinto lugar, ela recomenda: “não mexa muito as mãos, fique com elas pra trás ou com o braço cruzado. Fique meio dura, não rebole muito. não levante o queixo, franza as sobrancelhas e faça cara de coitada” Por último, ela diz: “não ria quando lembrar disso tudo na hora em que estiver fazendo o teatro.”

Morri de rir. Mas a Cris me garante que quando se começa a falar muito certinho, as pessoas mais simples acham que a gente é metida e, por isso, é bom sempre soltar algo do tipo: “nóis vai lá então?”

Fico pensando nessa coisa de cara de pobre, que me parece verdadeira e que gera uma série de reflexões que englobam desde o conteúdo da TV aberta até o perfil antropológico do brasileiro. Achei interessante colocar o assunto em meu blog porque creio que isso merece uma discussão mais aprofundada.

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Comentários em: "“Cara de pobre”" (1)

  1. Aplausos! Aqui, nesta banda do planeta, funciona assim mesmo. O dono da rede de lojas diz “sou o gerente”e as pessoas acham que ele é funcionário.
    Nóis vai e nóis vorta correm soltos por aqui.

    Mas quando eles querem ostentar para seus iguais,
    eles saem em sua Hilux 2011, queimando pneus,
    som nas alturas.

    Melhor lembrar Fernando Pessoa na hora de posar
    de pobre ou de rico…

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